Você ainda se sente desejado? Saiba que esse não é um problema só seu.

A Nike está tentando recuperar uma coisa que nenhuma estratégia consegue fabricar facilmente: desejo.
A marca continua enorme. Continua reconhecida, tendo história, tecnologia, atletas, produtos icônicos e uma das identidades mais fortes do mundo.
Mas isso não tem sido suficiente.
No primeiro trimestre fiscal de 2027, a receita caiu 4%, para US$ 11,2 bilhões. Na China, as vendas recuaram 22% e já são nove trimestres consecutivos de queda. A Jordan, que representa 13% do negócio global, também perdeu receita em dois dígitos.
Mas existe um detalhe nessa história que chama mais atenção do que os números.
A Nike percebeu que transformou aquilo que deveria ser escasso em algo disponível demais.
Foram tantos modelos “clássicos”, tantos lançamentos, tanta oferta, que alguns produtos que antes provocavam corrida pelo consumo chegaram às prateleiras de desconto.
Agora, a estratégia é fazer o caminho inverso: menos lançamentos, menos oferta e mais exclusividade. Recuperar o chamado pull market, aquele em que o consumidor procura a marca em vez de a marca precisar empurrar o produto.
E talvez exista aí uma discussão muito maior do que a Nike.
Será que também existe etarismo para marcas?
Não porque uma marca antiga necessariamente perdeu valor. Pelo contrário. História, repertório e reconhecimento podem ser alguns dos maiores ativos de uma empresa.
O problema começa quando ela passa a acreditar que ter história é suficiente para continuar sendo desejada.
Uma marca pode ser conhecida e deixar de ser desejada.
E isso vale para pessoas também.
Um profissional experiente não perde automaticamente conhecimento, repertório, capacidade de decisão ou visão estratégica porque os anos passaram.
Mas pode perder espaço quando o mercado deixa de perceber aquilo como relevante para
o presente.
Não é necessariamente perda de valor.
É perda de desejabilidade.
Talvez seja por isso que a discussão sobre empregabilidade depois de determinada idade precise ir além do discurso de “se atualizar”.
Claro que é preciso acompanhar mudanças, tecnologias e comportamentos. Mas existe outra questão: como fazer com que a experiência continue despertando interesse?
Experiência que não se renova pode ficar presa ao passado.
Quando dialoga com o presente, transforma-se em repertório e continua tendo valor.
E então chego a outro território, aparentemente distante: os relacionamentos.
Houve um tempo em que conquistar alguém levava tempo.
Não necessariamente porque as pessoas eram melhores ou mais difíceis. Havia simplesmente menos acesso imediato.
Era preciso conversar, esperar, descobrir, criar intimidade. Antes de existir alguma coisa concreta, existia expectativa.
Talvez parte do desejo nascesse justamente daí.
Hoje, quase tudo pode ser acessado imediatamente. Pessoas, produtos, informação, entretenimento, oportunidades.
E existe uma consequência curiosa quando tudo está disponível o tempo inteiro: o que era especial pode começar a parecer comum.
Isso também acontece dentro de uma relação.
Pode continuar existindo amor, companheirismo, história, cuidado e parceria. E, ainda assim, o desejo pode diminuir.
Porque amor e desejo não são a mesma coisa.
Assim como reconhecimento e desejo não são.
Experiência e desejo não são.
História e desejo não são.
Disponibilidade também não.
Talvez o desejo precise de alguma coisa que a nossa época esteja tornando cada vez mais rara: espaço para a expectativa.
Não estou defendendo a escassez artificial, muito menos relações em que alguém precisa se fazer de difícil.
Estou falando de algo mais simples.
Aquilo que queremos precisa nos provocar alguma curiosidade.
Precisa deixar alguma coisa para ser descoberta.
Fazer com que ainda exista vontade de chegar mais perto.
E talvez seja justamente esse o desafio da Nike, assim como das marcas, dos profissionais, das relações e até de nós mesmos.
Como continuar despertando interesse com o passar do tempo?
Envelhecer não significa perder atratividade ou valor. Na verdade, ter história aumenta a credibilidade e amplia o repertório. Estar disponível também não é um problema.
Mas existe uma diferença entre ser valorizado e ser desejado. E essa diferença merece mais atenção do que estamos dando a ela.
Continuar sendo desejado é uma questão que diz respeito a todos: pessoas, marcas, empresas, profissionais e relacionamentos.
A resposta não está na idade, no tempo de história ou na disponibilidade, mas na capacidade de continuar despertando curiosidade, admiração, expectativa e vontade de descobrir o que vem depois.



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