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A ordem dos fatores pode estar errada

Foto do escritor: Claudia Taulois
Claudia Taulois
8 de out.
2 min de leitura

Uma discussão importante sobre a Creator Economy ganhou espaço a partir de um problema que não é exatamente novo, mas está ficando mais difícil de ignorar: a falta de transparência sobre os dados que sustentam boa parte das decisões de marcas e criadores.


Um estudo do NetLab UFRJ em parceria com o Minderoo Centre for Technology and Democracy, da Universidade de Cambridge, apontou diferenças importantes na abertura de dados publicitários pelas plataformas. Segundo a análise apresentada no artigo, os relatórios disponíveis na Europa e no Reino Unido são significativamente mais detalhados do que os oferecidos no Brasil.


O impacto não fica restrito à dificuldade de comparar campanhas.


Criadores tomam decisões de produção, investimento e planejamento financeiro a partir dessas métricas. Quando um algoritmo muda ou a própria plataforma altera a forma de contabilizar uma visualização, uma mudança aparentemente técnica pode produzir consequências bastante concretas para quem depende daquele ambiente para trabalhar.


Para as marcas, existe outro problema: alcance e impressões são fáceis de apresentar, comparar e colocar em uma planilha. Mas não necessariamente traduzem autoridade, confiança, repertório ou a qualidade da relação construída entre um criador e

sua comunidade.


Tudo isso importa.


Mas talvez exista uma questão anterior.


Será que parte dos resultados que não estamos alcançando tem relação com a ordem

dos fatores?


A comunicação deveria partir da mensagem. A partir dela, construímos o conteúdo, identificamos o público, escolhemos os canais e usamos as métricas para entender o

que aconteceu.


Na prática, muitas vezes a lógica parece ter se invertido.


O que performa melhor passa a orientar o formato. O algoritmo influencia a construção do conteúdo. A métrica passa a definir o que merece investimento. E, pouco a pouco, a mensagem corre o risco de se adaptar ao canal, quando deveria acontecer o contrário.


Isso não significa ignorar plataformas, algoritmos ou indicadores.

Seria impossível fazer comunicação contemporânea sem eles.


Significa apenas recolocar cada elemento no seu lugar.


O conteúdo precisa comandar a estratégia. O canal precisa ajudar a distribuí-lo. A métrica precisa ajudar a avaliá-lo.


Quando essa ordem se perde, podemos acabar produzindo conteúdos muito eficientes para a plataforma e pouco relevantes para quem deveria recebê-los.


Um vídeo pode ter milhões de visualizações e não construir uma percepção importante. Um conteúdo pode gerar milhares de interações e não produzir nenhuma mudança de comportamento. Outro pode alcançar menos pessoas e, ainda assim, chegar exatamente à audiência que interessa.


A métrica não deixa de ter valor por causa disso.

Ela apenas deixa de ser suficiente.


Talvez a solução para a dependência dos intermediários não esteja em tentar escapar deles, mas em não entregar a eles o comando da comunicação.


O algoritmo pode ajudar a decidir quanto uma mensagem circula. Não deveria decidir se ela merece existir.


Porque, no fim, o objetivo não deveria ser produzir aquilo que a plataforma quer distribuir.


Deveria ser produzir aquilo que vale a pena dizer.


 
 
 

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