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Algoritmo pede frequência. O público pede motivo para prestar atenção.

Foto do escritor: Claudia Taulois
Claudia Taulois
30 de set.
3 min de leitura


Durante muito tempo, produzir conteúdo nas plataformas digitais pareceu obedecer a uma regra simples: é preciso aparecer.


Publicar com frequência. Manter o perfil ativo. Alimentar o feed. Não desaparecer.


A lógica faz sentido. Quem não publica deixa de ocupar espaço na conversa. E, em ambientes em que milhares de conteúdos disputam atenção a cada minuto, estar presente pode

fazer diferença.


Mas existe um problema nessa equação: o que acontece quando a frequência passa a determinar o que será produzido, e não o contrário?


Porque uma coisa é ter algo relevante para dizer com frequência.


Outra, bem diferente, é precisar encontrar alguma coisa para dizer porque hoje é dia

de publicar.


O próprio YouTube ajuda a desmontar essa ideia. Em suas orientações atuais, a plataforma afirma que não é necessário publicar diariamente ou sequer semanalmente e diz não ter encontrado relação entre o intervalo entre os uploads e o crescimento das visualizações. Ao mesmo tempo, recomenda consistência, mas enfatiza que qualidade é mais importante do que quantidade e que a frequência precisa ser sustentável. Também alerta que publicar repetidamente conteúdos que não despertam interesse pode, com o tempo, afetar o desempenho do canal.


Ou seja: consistência não significa produção incessante.


No LinkedIn, o movimento é ainda mais explícito. A plataforma anunciou mudanças para reduzir conteúdos genéricos, repetitivos e reciclados, além de publicações construídas principalmente para provocar engajamento. A proposta é aumentar a presença de conteúdos com insights genuínos, ideias úteis e perspectivas próprias.


Em setembro, o LinkedIn informou que suas iniciativas já haviam reduzido em 40% as visualizações de conteúdos classificados pela plataforma como “AI slop”: conteúdos de baixo esforço, genéricos, repetitivos ou reciclados, que podem até parecer bem escritos, mas não apresentam uma perspectiva ou substância própria.


Isso é interessante porque muda a pergunta.


Talvez não seja mais tão útil perguntar:

“Quantas vezes preciso publicar para o algoritmo me enxergar?”


Talvez seja melhor perguntar:

“O que estou oferecendo para que alguém queira continuar me vendo?”


Frequência pode construir presença.

Relevância constrói interesse.

E uma não precisa eliminar a outra.


É perfeitamente possível falar muitas vezes sobre o mesmo território sem dizer a

mesma coisa.


Uma marca pode falar de inovação durante anos sem repetir a mesma ideia.

Um profissional pode discutir liderança constantemente sem transformar todos os posts em variações da mesma frase.

O escritor pode falar sobre comportamento, cultura ou histórias sem precisar produzir uma nova tese todos os dias.


O que permite isso?

Repertório.


É ele que transforma recorrência em continuidade, em vez de repetição.


Quem lê, pesquisa, observa, conversa, acompanha movimentos, conhece histórias, percebe mudanças de comportamento e conecta assuntos diferentes não precisa inventar uma novidade artificialmente todos os dias.


Uma pesquisa pode gerar uma análise.

A análise pode revelar uma contradição.

Contradição pode levar a um caso.

Um caso pode trazer uma história.

E uma história pode abrir uma nova pergunta.


Isso é desdobramento.

Não é repetir a mesma ideia com uma nova embalagem.


O problema aparece quando não existe repertório suficiente para sustentar a frequência.


Aí o conteúdo começa a ficar previsível.

A mesma opinião ganha outro título.

O mesmo exemplo volta.

A mesma estrutura se repete.


E a pergunta no final muda, mas a conclusão permanece.

Até a personalidade começa a parecer uma fórmula.


E existe uma ironia nisso tudo: a tentativa de produzir mais pode acabar produzindo justamente aquilo que as plataformas dizem querer reduzir.


  • Mais conteúdo, mas menos novidade.

  • Mais posts, mas menos substância.

  • Mais presença, mas menos motivo para prestar atenção.


Talvez por isso a discussão não devesse ser simplesmente sobre quantidade

versus qualidade.


O verdadeiro desafio é encontrar uma frequência que não empobreça aquilo que você tem

a dizer.


Nem todo dia precisa trazer uma grande ideia.

E nem todo conteúdo precisa ser uma obra-prima.


Mas cada publicação deveria ter uma razão para existir.


Pode ser uma informação que você descobriu:


  • Uma conexão que ainda não tinha sido feita.

  • Um caso que merece ser observado.

  • Uma experiência que acrescenta contexto.

  • Uma pergunta que realmente abre uma conversa.


Ou simplesmente uma perspectiva que não estava ali antes.


Porque, no fim, o algoritmo pode ajudar alguém a encontrar o seu conteúdo.


Mas é o conteúdo que precisa dar a essa pessoa uma razão para ficar.


Calendário pede publicação. O público pede relevância. E repertório é o que permite fazer as duas coisas sem transformar presença em repetição.


 
 
 

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