As histórias precisam provar seu valor para as marcas?
- Claudia Taulois
- 1 de jul.
- 3 min de leitura

Durante muito tempo, parecia que a literatura precisava justificar sua existência.
Livros precisavam provar que geravam vendas. Histórias precisavam demonstrar potencial de adaptação para o cinema ou para o streaming. Narrativas precisavam mostrar que poderiam atrair patrocinadores, fortalecer marcas ou gerar engajamento.
Como se o valor de uma história dependesse de sua utilidade para os negócios.
Mas talvez estejamos vivendo uma inversão silenciosa.
Nos últimos anos, empresas dos mais diversos setores passaram a investir cada vez mais em filmes, séries, documentários, podcasts e projetos editoriais. Marcas de moda se aproximaram do cinema. Gigantes do varejo passaram a produzir conteúdo próprio.
Departamentos de marketing começaram a operar como verdadeiros estúdios criativos.
À primeira vista, parece apenas uma evolução natural das estratégias de comunicação.
Mas existe algo mais profundo acontecendo.
Talvez as marcas estejam percebendo que, em um mundo onde produtos podem ser copiados, tecnologias se tornam rapidamente acessíveis e tendências desaparecem
na mesma velocidade em que surgem, o verdadeiro diferencial não está mais apenas
no produto.
Está no significado.
E significado é o território das histórias.
Uma bolsa pode ser copiada, um tênis pode ser replicado, uma tecnologia pode ser superada.
Mas uma narrativa capaz de criar identificação, pertencimento e memória é muito mais difícil de substituir.
As pessoas raramente se conectam apenas com características técnicas.
Elas se conectam com aquilo que essas características representam. Com aquilo que as faz se sentir parte de algo e as ajuda a explicar quem são.
Talvez seja por isso que tantas empresas estejam correndo atrás de algo que os escritores conhecem há séculos: a capacidade de criar conexão humana.
Porque histórias não vendem apenas produtos.
Histórias explicam valores, escolhas, medos, desejos e aspirações.
Explicam quem somos.
Como escritora, observo esse movimento com fascínio.
Não apenas porque ele aproxima diferentes indústrias, mas porque revela uma verdade antiga: toda organização, toda marca e toda pessoa carrega histórias invisíveis.
E são justamente essas histórias que costumam ser mais interessantes.
Aquilo que acontece longe dos holofotes.
Os conflitos que não aparecem nas campanhas.
As contradições escondidas atrás das vitrines.
Os bastidores que raramente chegam ao público.
Curiosamente, quando escrevemos ficção, nem sempre sabemos exatamente para onde uma história está nos levando.
Muitas vezes começamos guiados por uma personagem, um cenário, uma cena ou uma sensação difícil de explicar.
Só depois entendemos as perguntas que estavam escondidas ali.
Foi o que aconteceu comigo em “A Fênix”.
A história nasceu de uma inspiração. De personagens que surgiram, ganharam voz e começaram a ocupar espaço na narrativa. Aos poucos, porém, o enredo foi revelando
algo maior. O universo da moda, inicialmente apenas um cenário fascinante, passou a expor seus contrastes.
A beleza dividiu espaço com a vulnerabilidade.
O glamour encontrou suas sombras.
E temas que pareciam distantes da ficção passaram a exigir atenção.
Não porque eu tivesse partido deles.
Mas, porque a própria história me conduziu até eles.
Ao acompanhar a jornada de Milla, uma modelo que precisa reconstruir a própria vida após vivenciar experiências traumáticas, percebi que a narrativa tocava em questões que ultrapassavam o universo da moda.
Falava sobre identidade, coragem e reconstrução.
Sobre aquilo que acontece quando descobrimos que o mundo é mais complexo do que imaginávamos.
E talvez seja justamente aí que reside a força das histórias.
Elas não existem para cumprir uma estratégia.
Não nascem para atender uma tendência, nem surgem para justificar uma marca.
Elas existem para explorar as complexidades humanas.
Para iluminar aquilo que normalmente permanece oculto e fazer perguntas que nem sempre sabemos responder.
É justamente por isso que continuam tão poderosas.
Porque, em um mundo saturado de informações, dados e estímulos, as histórias ainda oferecem algo raro: significado.
E significado não pode ser fabricado. Não pode ser acelerado, nem copiado.
Ele precisa ser construído.
Talvez seja por isso que tantas empresas estejam investindo em narrativas.
Não porque descobriram uma nova ferramenta de marketing.
Mas, porque perceberam algo que a literatura sempre soube.
As pessoas podem esquecer campanhas.
Podem esquecer slogans e produtos.
Mas dificilmente esquecem uma boa história.
Durante décadas, as histórias precisaram provar seu valor para o mercado.
Hoje, olhando para os movimentos culturais que nos cercam, fico com a impressão de que estamos assistindo ao movimento inverso.
Talvez as histórias nunca tenham precisado das marcas para justificar sua importância.
E sim, as marcas que estejam correndo atrás do poder que as histórias sempre tiveram.



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