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O vale invisível dos fenômenos

Foto do escritor: Claudia Taulois
Claudia Taulois
22 de jul.
3 min de leitura

Sempre que alguém se torna um fenômeno, começa uma corrida para explicar o por quê.


Uns dizem que foi talento.


Outros juram que foi posicionamento.


Há quem aponte o algoritmo, o marketing, a comunidade certa ou a estratégia perfeita.


Nos últimos anos, também surgiu uma infinidade de especialistas prometendo exatamente isso: o método capaz de tirar qualquer pessoa do anonimato e levá-la

ao sucesso.


Confesso que nenhuma dessas explicações me convence completamente.


Não porque eu ache que posicionamento, marketing ou comunidade não importem.


Eles importam. E muito! O problema é outro.


Olhando para diferentes histórias de sucesso, encontro caminhos completamente distintos. E, ainda assim, todos terminam no mesmo lugar: o rótulo de "fenômeno".


Um bom exemplo é a trajetória de Colleen Hoover. Sua história costuma ser apresentada como um grande case de posicionamento. Afinal, seus livros encontraram uma comunidade apaixonada de leitores, foram impulsionados pelo BookTok e se transformaram em um fenômeno editorial.


Mas será que essa explicação basta?


Se fosse apenas uma questão de posicionamento, bastaria aplicar a mesma estratégia para produzir novos fenômenos.


Sabemos que não funciona assim.


O mesmo desconforto aparece quando olhamos para outras histórias.


Andy Weir publicou The Martian gratuitamente em seu site e conquistou leitores antes de encontrar uma editora.


James Clear escreveu durante anos para uma audiência que crescia lentamente antes de publicar Hábitos Atômicos.


J.K. Rowling recebeu sucessivas recusas antes de uma pequena editora apostar em Harry Potter.


Os fundadores do Airbnb passaram anos tentando convencer investidores de que a ideia fazia sentido.


Van Gogh: seu reconhecimento veio décadas depois.


São trajetórias completamente diferentes.


Algumas nasceram em comunidades independentes.

Outras dependeram da aposta de um gatekeeper.

Algumas cresceram graças ao boca a boca.

Outras encontraram o momento certo em uma nova plataforma.


Quanto mais exemplos observo, menos acredito que exista uma fórmula capaz de explicar todos eles.


E é justamente aí que mora minha inquietação.


Porque vivemos um momento em que quase tudo parece precisar de um método.


Existe método para escrever, para vender, para construir uma marca, para dominar o algoritmo, para se posicionar.


E esses métodos podem, sim, aumentar as chances de um trabalho ser encontrado.

O problema começa quando eles são vendidos como garantias.

Porque não são.


Se fossem, bastaria seguir os mesmos passos e todos alcançaríamos os

mesmos resultados.


Não é isso que acontece.


Talvez exista algo que ainda não sabemos medir.


Talento importa.

Persistência importa.

Posicionamento importa.

Comunidade importa.

Contexto importa.


Mas nenhuma dessas variáveis, isoladamente, parece explicar por que algumas pessoas atravessam o vale entre o anonimato e o reconhecimento, enquanto tantas outras ficam pelo caminho.


Talvez o maior erro seja estudar apenas quem chegou ao destino.


Afinal, conhecemos profundamente as histórias de quem deu certo. Mas quase nunca olhamos para as centenas — talvez milhares — de pessoas talentosas que fizeram escolhas parecidas, trabalharam com a mesma dedicação e, ainda assim, permaneceram invisíveis.


Isso não significa que o sucesso seja aleatório.


Significa apenas que ele talvez seja mais complexo do que gostaríamos de admitir.


E talvez esse seja o ponto que mais me interessa.


Não descobrir uma fórmula.

Mas aceitar que ela provavelmente não existe.


Talvez o sucesso da noite para o dia seja apenas o nome que damos aos anos que

não vimos.



 
 
 

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