Frio é psicológico. Tempo também?

Não exatamente.
O relógio não negocia. Uma hora tem 60 minutos para todo mundo.
Mas a relação que temos com o tempo é bastante relativa.
Há pessoas que vivem tão ocupadas que mal conseguem parar para pesquisar, ler, estudar ou acompanhar o que acontece ao seu redor.
E há outras que, justamente por terem pouco tempo, aprendem a aproveitá-lo melhor. Selecionam, priorizam, otimizam.
O paradoxo é que também existe quem tenha tempo de sobra e se perca nele.
Em 2024, uma pesquisa do Bureau of Labor Statistics, nos Estados Unidos, mostrou que pessoas com 15 anos ou mais dedicavam, em média, 5,07 horas por dia a atividades de lazer.
Desse tempo, 2,6 horas eram gastas assistindo televisão. A leitura por interesse pessoal representava, em média, 17 minutos por dia.
Não é uma crítica ao lazer. Descansar também é necessário.
A questão é outra: o que fazemos com o tempo que conseguimos ter?
Porque podemos passar horas disponíveis consumindo informação que não acrescenta repertório e, depois, dizer que não tivemos tempo para ler, pesquisar ou aprender
alguma coisa.
Também é verdade que a vida profissional está cada vez mais fragmentada. Uma pesquisa da Microsoft apontou que 68% das pessoas dizem não ter tempo suficiente de concentração ininterrupta durante o trabalho.
Então, sim: para muita gente, falta tempo de verdade.
Mas isso cria outro fenômeno.
Quem está ocupado demais pode acabar dependendo de outras pessoas para selecionar, interpretar e organizar aquilo que precisa saber.
Recorrer a especialistas não é o problema. Ninguém consegue acompanhar tudo.
O problema está em não construir as próprias fontes, não fazer perguntas, não comparar informações e não checar aquilo que recebemos.
Porque, quando terceirizamos completamente o nosso repertório, podemos acabar terceirizando também o nosso julgamento.
Uma informação equivocada pode levar a uma decisão importante. Uma análise enviesada pode alterar uma estratégia. Uma única fonte pode esconder justamente aquilo que
outra mostraria.
E existe uma consequência ainda menos evidente.
Sem repertório próprio, as conversas também ficam mais pobres.
A pessoa pode até falar muito, mas suas falas começam a reproduzir o que ouviu de alguém. Faltam referências, conexões, histórias, experiências e pontos de vista.
Não é a quantidade de informação que torna alguém interessante.
É o que essa pessoa consegue fazer com ela.
É aí que tempo, conhecimento e repertório se encontram.
Talvez o verdadeiro privilégio não seja simplesmente ter tempo.
Mas sim, saber o que fazer com ele.
Porque quem passa muito tempo sem construir nada consistente pode, aos poucos, perder relevância, tornar-se menos interessante e depender cada vez mais do conhecimento
dos outros.
E existe um último paradoxo.
A pessoa que passou a vida dizendo que não tinha tempo pode, um dia, se ver com todo o tempo do mundo.
Só que, dessa vez, sem saber o que fazer com ele.



Comentários