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Frio é psicológico. Tempo também?

Foto do escritor: Claudia Taulois
Claudia Taulois
25 de set.
2 min de leitura

Não exatamente.


O relógio não negocia. Uma hora tem 60 minutos para todo mundo.


Mas a relação que temos com o tempo é bastante relativa.


Há pessoas que vivem tão ocupadas que mal conseguem parar para pesquisar, ler, estudar ou acompanhar o que acontece ao seu redor.


E há outras que, justamente por terem pouco tempo, aprendem a aproveitá-lo melhor. Selecionam, priorizam, otimizam.


O paradoxo é que também existe quem tenha tempo de sobra e se perca nele.


Em 2024, uma pesquisa do Bureau of Labor Statistics, nos Estados Unidos, mostrou que pessoas com 15 anos ou mais dedicavam, em média, 5,07 horas por dia a atividades de lazer.


Desse tempo, 2,6 horas eram gastas assistindo televisão. A leitura por interesse pessoal representava, em média, 17 minutos por dia.


Não é uma crítica ao lazer. Descansar também é necessário.


A questão é outra: o que fazemos com o tempo que conseguimos ter?


Porque podemos passar horas disponíveis consumindo informação que não acrescenta repertório e, depois, dizer que não tivemos tempo para ler, pesquisar ou aprender

alguma coisa.


Também é verdade que a vida profissional está cada vez mais fragmentada. Uma pesquisa da Microsoft apontou que 68% das pessoas dizem não ter tempo suficiente de concentração ininterrupta durante o trabalho.


Então, sim: para muita gente, falta tempo de verdade.


Mas isso cria outro fenômeno.


Quem está ocupado demais pode acabar dependendo de outras pessoas para selecionar, interpretar e organizar aquilo que precisa saber.


Recorrer a especialistas não é o problema. Ninguém consegue acompanhar tudo.


O problema está em não construir as próprias fontes, não fazer perguntas, não comparar informações e não checar aquilo que recebemos.


Porque, quando terceirizamos completamente o nosso repertório, podemos acabar terceirizando também o nosso julgamento.


Uma informação equivocada pode levar a uma decisão importante. Uma análise enviesada pode alterar uma estratégia. Uma única fonte pode esconder justamente aquilo que

outra mostraria.


E existe uma consequência ainda menos evidente.


Sem repertório próprio, as conversas também ficam mais pobres.


A pessoa pode até falar muito, mas suas falas começam a reproduzir o que ouviu de alguém. Faltam referências, conexões, histórias, experiências e pontos de vista.


Não é a quantidade de informação que torna alguém interessante.

É o que essa pessoa consegue fazer com ela.


É aí que tempo, conhecimento e repertório se encontram.


Talvez o verdadeiro privilégio não seja simplesmente ter tempo.

Mas sim, saber o que fazer com ele.


Porque quem passa muito tempo sem construir nada consistente pode, aos poucos, perder relevância, tornar-se menos interessante e depender cada vez mais do conhecimento

dos outros.


E existe um último paradoxo.


A pessoa que passou a vida dizendo que não tinha tempo pode, um dia, se ver com todo o tempo do mundo.


Só que, dessa vez, sem saber o que fazer com ele.


 
 
 

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