O perigo de todos estarem certos
- Claudia Taulois
- 23 de jun.
- 3 min de leitura

O objetivo era inovar.
Mas, de repente, ficou tudo igual.
Nessa Copa do Mundo, torcedores perceberam algo curioso. Nos pés dos jogadores, predominava a mesma cor: rosa.
Nike, Adidas, Puma, Mizuno e outras marcas chegaram praticamente à mesma conclusão para suas coleções. A escolha não foi aleatória. Estudos apontavam que a cor se destacava mais no gramado, transmitia confiança aos atletas e estava alinhada às tendências globais de moda esportiva.
Cada empresa fez sua pesquisa. As equipes analisaram seus dados. A estratégia parecia sólida.
O resultado, porém, foi inesperado: marcas concorrentes, tentando se diferenciar, acabaram produzindo algo visualmente semelhante.
A pergunta que fica é simples: como tantas organizações inteligentes chegaram exatamente ao mesmo lugar?
Talvez porque todas estavam olhando para as mesmas fontes.
E talvez esse fenômeno não esteja restrito ao futebol.
Ele parece estar em toda parte.
A era da criatividade convergente
Nunca tivemos tanto acesso à informação, a estudos, relatórios, pesquisas de mercado, tendências, especialistas e ferramentas tecnológicas.
Paradoxalmente, também nunca vimos tanta semelhança.
Empresas lançam produtos parecidos.
Campanhas publicitárias seguem fórmulas semelhantes.
Criadores de conteúdo reproduzem formatos idênticos.
Livros parecem versões diferentes da mesma ideia.
Filmes repetem estruturas já testadas.
Todos buscam inovação.
Mas cada vez mais encontramos convergência.
Talvez estejamos vivendo uma era em que a criatividade continua abundante, mas a originalidade se tornou escassa.
Produtividade não é criatividade
Durante décadas, muitos mercados confundiram produtividade com criatividade.
Produzir mais campanhas.
Publicar mais conteúdos.
Escrever mais livros.
Postar mais vídeos.
Lançar mais produtos.
Tudo isso aumenta a produtividade e a visibilidade.
Mas não necessariamente aumenta a criatividade.
Criatividade não é volume. É ruptura.
Uma pessoa pode produzir cem ideias seguindo a mesma lógica e continuar presa ao mesmo território. Outra pode produzir apenas uma ideia capaz de abrir uma nova estrada.
O problema é que produtividade é fácil de medir.
Criatividade não.
Por isso, organizações tendem a recompensar quem entrega mais, e não necessariamente quem enxerga diferente.
Quando tudo parece igual
Esse fenômeno é visível até nas propagandas.
Comerciais de margarina mostram famílias felizes ao redor da mesa.
Molhos de tomate celebram encontros familiares.
Bancos falam de sonhos.
Seguradoras falam de proteção.
Supermercados falam de pertencimento.
Muitas campanhas são tecnicamente excelentes.
Mas, quando terminam, algo curioso acontece.
Lembramos da emoção, mas não da marca.
Recordamos da história, mas não lembramos do produto.
A tarefa foi executada com competência.
Mas a diferenciação desapareceu.
O que a arte pode nos ensinar
A história da arte mostra que as grandes transformações raramente nasceram do consenso.
Os impressionistas foram criticados porque suas pinturas pareciam inacabadas.
Picasso rompeu com a representação tradicional da realidade.
Kafka escreveu histórias que pareciam estranhas para sua época.
James Joyce desmontou as estruturas narrativas convencionais.
Muitos dos criadores que hoje admiramos foram inicialmente vistos como erros de percurso.
Eles não estavam respondendo às mesmas perguntas que todos os outros.
Estavam fazendo perguntas diferentes.
E talvez essa seja a essência da originalidade.
O papel do décimo primeiro homem
Existe uma ideia conhecida como a "Regra do Décimo Homem".
Ela sugere que, quando todos concordam sobre algo, alguém deve ter a responsabilidade de discordar.
Não porque esteja necessariamente certo.
Mas, porque o consenso também pode errar.
Talvez toda empresa e toda equipe criativa precise dessa figura.
Assim como todo escritor necessita dessa voz dentro de si.
Aquela intuição que pergunta:
"E se estivermos olhando para o lugar errado?"
"O que acontece se a pesquisa estiver apontando apenas para o que já existe?"
"A melhor ideia pode ser justamente aquela que ninguém recomendaria?"
Uma reflexão para escritores
Quem escreve conhece bem essa tentação: acompanhar tendências, reproduzir fórmulas de sucesso, escrever aquilo que parece mais seguro.
Mas os livros que permanecem raramente nascem dessa lógica.
Eles surgem quando alguém enxerga algo que os demais não perceberam. Aquela pergunta que ainda não foi feita e tem coragem de caminhar sem a proteção do consenso.
Talvez a grande ameaça à criatividade contemporânea não seja a inteligência artificial.
Nem a falta de talento.
Talvez seja exatamente o contrário.
O excesso de referências, de validações e de certezas.
Porque quando todos consultam os mesmos dados, seguem as mesmas tendências e procuram as mesmas respostas, o risco não é errar.
O risco é tornar-se indistinguível.
E a originalidade começa justamente onde termina o consenso.



Comentários