Qual é o seu maior luto: o que morreu naturalmente ou o que você deixou morrer?
- Claudia Taulois
- 21 de ago.
- 3 min de leitura

Há coisas que terminam.
E há coisas que a gente abandona antes que tenham a chance de acontecer.
Às vezes, porque percebemos que não fazem mais sentido.
Outras vezes, porque alguém nos convenceu de que não deveriam ser daquele jeito.
É curioso como aprendemos a criticar e julgar quem tem muitas ideias.
“Você precisa escolher um nicho.”
“Precisa focar.”
“Não dá para falar de tudo.”
E existe verdade nisso. Foco é importante.
Sem ele, ideias podem se espalhar tanto que nenhuma encontra força suficiente para sair
do lugar.
Mas existe uma diferença entre ter foco e reduzir o próprio repertório para caber em
uma definição.
E essa diferença me toca em um lugar especial.
Há alguns anos, criei a Engaging. A ideia era ajudar pessoas que estavam atravessando uma transição profissional a reconstruir a própria vida.
Eu acreditava que esse processo precisava ser olhado por três ângulos.
O primeiro era o emocional.
O luto pela perda do trabalho, da identidade profissional, da rotina, da sensação de pertencimento. Aquela parte invisível da transição que dificilmente aparece em um currículo, mas que pode determinar o que a pessoa consegue fazer depois.
O segundo era o prático.
Como fazer o dinheiro durar? O que estudar? Que competências desenvolver? Como reorganizar a vida enquanto o próximo passo ainda não está claro?
E o terceiro era a reconstrução.
Depois de cuidar do que ficou para trás e organizar o presente, vinha a decisão sobre o futuro: voltar ao mercado, empreender, mudar de área, criar alguma coisa nova ou simplesmente descobrir outro caminho.
E era mais que o cuidado. Era construir pontes entre quem precisava de ajuda e quem
podia ajudar.
E eu não via essas três dimensões como assuntos diferentes. Via como partes de uma
mesma travessia.
A ideia não prosperou como eu imaginava. Faz parte.
Mas ela continuou comigo como conceito. Eu realmente acredito que era uma ferramenta importante. Mas a funçào aqui não é lamentar. É de aprendizagem aos novos caminhos.
E, anos depois, olhando para outras coisas que faço, percebo que talvez exista uma coerência maior naquilo que, à primeira vista, parece diversidade demais.
Meu site, por exemplo, não foi construído para caber em um único assunto.
Ele pode partir de uma notícia, atravessar uma tendência, observar um comportamento, investigar uma transformação de mercado ou simplesmente trazer uma ideia.
Não porque falte direção. Mas porque o mundo também não cabe em nichos tão perfeitamente organizados.
Gosto de observar o que está acontecendo, juntar repertórios diferentes, avaliar possibilidades, fazer conexões e, principalmente, provocar conversa.
Com meus livros acontece algo parecido.
Cada história abre uma porta para um cenário diferente. Há personagens, lugares, conflitos e temas muito diversos.
Mas existe algo que atravessa todas elas: pessoas tentando viver, escolher, amar, perder, recomeçar.
No fundo, talvez seja essa a minha consistência.
Eu gosto de pessoas.
Gosto das histórias que elas carregam, das escolhas que fazem, das contradições que vivem e das possibilidades que aparecem quando alguma coisa muda.
Talvez por isso eu tenha dificuldade em acreditar que curiosidade demais seja um problema.
Não acho que seja necessário plantar todas as sementes que encontramos.
Foco também é saber escolher qual delas merece ser plantada agora.
Mas isso é diferente de jogar fora as outras apenas porque alguém disse que um jardim bom deveria ter uma única espécie.
Algumas ideias precisam de tempo.
Outras precisam de outro terreno.
E algumas precisam simplesmente esperar.
Possivelmente, muitas vão nos surpreender muitos anos depois, quando encontrarem a hora certa de nascer.
Talvez você também tenha uma ideia que deixou de lado porque disseram que era ampla demais, difícil demais, diferente demais.
Antes de enterrá-la, talvez valha uma segunda olhada.
Não para insistir no que já não faz sentido.
Mas para descobrir se aquilo realmente morreu.
Ou se apenas estava esperando um lugar onde pudesse florescer.
Talvez algumas pessoas não tenham uma única semente.
Pode ser que tenham um celeiro inteiro. E isso é ótimo!



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