A marca pagou para ser vista. E conseguiu ser odiada.
- Claudia Taulois
- há 1 dia
- 3 min de leitura

Como publicitária, com vasta experiência em comunicação, preciso falar sobre algo que me desagrada imensamente, tanto como profissional quanto como consumidora.
E fico me perguntando: será que só eu estou enxergando isso?
Estou falando das inserções comerciais durante as transmissões esportivas, especialmente quando a tela é dividida e a publicidade compromete a imagem e o som do jogo.
Nós nos acostumamos com as interrupções comerciais. Gostemos ou não, aprendemos a conviver com elas. Em uma programação normal, o intervalo faz parte do jogo. A novela para, o programa para, a série para e os comerciais entram. Faz parte do modelo de televisão que conhecemos há décadas.
Mas uma transmissão ao vivo é diferente.
Principalmente quando estamos falando de esporte.
O torcedor está ali porque quer acompanhar o que está acontecendo naquele exato momento. Está concentrado, envolvido emocionalmente, esperando a próxima jogada, o próximo lance, a próxima decisão.
E não estou falando apenas do risco de perder alguma coisa. Estou falando da
própria experiência.
Uma transmissão esportiva constrói uma jornada emocional: a atenção aumenta, a expectativa cresce, a tensão se acumula e chega o clímax.
E é justamente aí que, muitas vezes, uma inserção comercial interrompe o momento.
A tela divide. A imagem é reduzida. O som é comprometido. E aquilo que estava sendo construído emocionalmente é interrompido.
É um anticlimax.
E não sou só eu que tenho essa percepção.
Pesquisas sobre publicidade em transmissões esportivas já identificaram que a percepção de intrusão pode influenciar negativamente a atitude em relação à publicidade e aumentar a tendência de evitá-la. Estudos mais recentes, inclusive, vêm analisando especificamente o efeito dos anúncios em tela dividida durante transmissões esportivas, mostrando como o momento e o contexto emocional da partida interferem na atenção e na reação ao anúncio.
Um estudo com mais de 36 mil observações segundo a segundo, por exemplo, mostrou que a atenção aos patrocinadores muda de acordo com o que está acontecendo em campo.
Quando o time preferido está atacando perto da área adversária, a atenção aos patrocinadores diminui.
Faz sentido.
Quando a emoção sobe, o jogo ocupa o espaço.
E é justamente por isso que começo a questionar algumas decisões de comunicação.
Entendo que as marcas precisam encontrar novos formatos. Entendo que a publicidade precisa evoluir. E acho ótimo que existam novas possibilidades de inserção.
Mas desde quando um formato novo passou a ser sinônimo de inovação?
Uma coisa é criar uma nova forma de comunicação.
Outra é simplesmente encontrar uma nova forma de interromper o consumidor.
E existe uma questão ainda mais importante para quem decide onde colocar as verbas de uma empresa: qual experiência essa exposição está criando para a marca?
Porque a empresa pode estar comprando alguns segundos de visibilidade e, ao mesmo tempo, produzindo irritação em quem está assistindo.
A marca queria estar presente em um momento de enorme envolvimento.
Mas será que escolheu a melhor maneira de estar presente?
Essa é a reflexão que me interessa.
Comunicação não deveria ser pensada apenas a partir da possibilidade de colocar uma marca diante de alguém.
Deveria considerar também como essa pessoa se sente quando a marca aparece.
Porque existe toda uma jornada sendo construída até aquele momento. E colocar a marca exatamente no ponto de maior tensão pode ser o maior anticlimax dessa jornada.
Nem todo formato novo é inovação.
E, principalmente, nem toda novidade merece receber uma parte da verba de comunicação.
Porque irritar o consumidor pode até gerar lembrança.
Mas talvez seja uma das piores formas de ser lembrado.



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