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Quando a inclusão começa a excluir

Foto do escritor: Claudia Taulois
Claudia Taulois
6 de ago.
3 min de leitura

Tenho a impressão de que estamos vivendo uma mudança silenciosa na forma de enxergar as pessoas.


Durante muito tempo, a primeira pergunta era: quem é você?


Hoje, cada vez mais, parece que começamos por outra:

A que grupo você pertence?


Seu gênero, sua cor, sua orientação sexual, sua religião, sua posição política, sua classe social. Antes mesmo de ouvirmos o que alguém tem a dizer, já tentamos encaixá-lo em uma categoria.


Talvez o conceito de “lugar de fala” seja um dos melhores exemplos

dessa transformação.


Na sua origem, ele trouxe uma contribuição importante. Lembrou que pessoas que viveram determinadas experiências carregam perspectivas que não podem ser ignoradas. Durante muito tempo, muitas dessas vozes foram silenciadas.


Era necessário corrigir esse desequilíbrio.


Mas existe um outro elemento igualmente importante: ao corrigirmos um desequilíbrio, não estaremos criando outro?


Em muitos debates, o lugar de fala deixou de ser um convite para ouvir quem viveu determinada realidade e passou a funcionar como um critério para definir quem pode ou não participar da conversa.


É uma mudança sutil, mas profunda.


A escuta deu lugar à autorização.


E eu não acredito que sociedades se tornem mais inclusivas quando determinam quem pode falar.


Acredito que elas evoluem quando mais pessoas conseguem conversar.


Sou mulher.

Fui vítima de abuso na infância e na adolescência.

Também vivi situações de assédio moral no ambiente de trabalho.


Essas experiências fazem parte da minha história e certamente influenciam minha maneira de enxergar o mundo.


Mas elas não me fazem pensar de que todos os homens são violentos ou de que toda liderança representa abuso de poder.


Minha dor explica parte da minha visão.

Ela não me autoriza a transformar indivíduos em categorias.


O mesmo vale para qualquer outro tema.


Nos últimos anos, percebo que essa lógica também tem alcançado a literatura, o cinema e tantas outras manifestações culturais.


Obras importantes têm ampliado nosso olhar sobre personagens e histórias que durante muito tempo permaneceram invisíveis. Isso é valioso e necessário.


Mas, em alguns casos, parece que deixamos de perguntar quem são aqueles personagens para perguntar apenas que estrutura de poder eles representam.


Como se toda narrativa pudesse ser reduzida à disputa entre dominadores e dominados.


Essa leitura pode revelar aspectos importantes da realidade.


Mas ela dificilmente explica toda a complexidade humana.


Toda teoria é uma lente.

Ela ilumina determinados aspectos do mundo.


O problema começa quando acreditamos que uma única lente explica tudo:

Que toda relação passa a ser interpretada exclusivamente como opressão.


Toda divergência vira conflito entre grupos.


E quando toda identidade passa a determinar a legitimidade de uma opinião.


A história também nos ensina algo importante: a escravidão foi uma das maiores tragédias da humanidade e a escravidão negra deixou marcas profundas que ainda moldam a sociedade brasileira.


Reconhecer isso é indispensável.


Mas também é verdade que a escravidão não atingiu apenas um povo. Na Antiguidade, na Idade Média e na era moderna, diferentes populações foram escravizadas por motivos diversos. Povos eslavos, europeus capturados por piratas no norte da África, prisioneiros de guerra em diferentes civilizações... a história está repleta de exemplos.


Lembrar desses fatos não diminui a brutalidade da escravidão negra nem relativiza

suas consequências.


Apenas nos recorda de uma verdade desconfortável: a desumanização nunca escolheu uma única vítima.


Talvez porque o verdadeiro problema nunca tenha sido apenas a cor da pele.


Sempre foi a capacidade humana de transformar pessoas em rótulos.


E aqui está a ironia.


Criamos conceitos para combater a exclusão.


Mas, se não tivermos cuidado, podemos acabar construindo novas formas de

separar pessoas.


A verdadeira inclusão não acontece quando restringimos a mesa.

Ela acontece quando ampliamos os lugares ao redor dela.


Quando ouvimos quem viveu experiências diferentes das nossas.

E reconhecemos que algumas vozes precisam, sim, ganhar espaço.


Mas também quando entendemos que empatia não exige identidade.


Ninguém precisa ter vivido exatamente a dor do outro para acolhê-la.


Se apenas quem pertence a um grupo pode compreender, opinar ou dialogar sobre ele, deixamos de construir pontes.


Passamos apenas a administrar fronteiras. E elas, por definição, existem para separar.


Talvez o desafio do nosso tempo não seja descobrir quem tem o direito de falar.

Seja reaprender a enxergar pessoas antes de enxergar categorias.


Porque nenhuma teoria, nenhuma identidade e nenhum grupo conseguem explicar completamente um ser humano.


E talvez seja justamente essa complexidade que nos torne dignos de sermos ouvidos.


O bom é poder sentar para uma boa conversa sem ter que pensar sobre o que cada um pode ou não falar. Nesse dia, seremos bem mais felizes!


 
 
 

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