A narrativa nunca pode estar acima dos fatos

Em comunicação, construir uma narrativa faz parte do trabalho. Uma boa história organiza acontecimentos, cria contexto, aproxima pessoas e ajuda a tornar compreensível aquilo que, isoladamente, poderia parecer apenas um conjunto de informações.
O problema começa quando a narrativa deixa de organizar os fatos e passa a substituí-los.
Em 2014, Lula contou uma história sobre o período em que fazia oposição e viajava pelo mundo falando sobre os problemas brasileiros. Segundo seu próprio relato, costumava citar números sem saber exatamente de onde vinham. Em uma dessas ocasiões, mencionou 25 milhões de crianças de rua no Brasil. Jaime Lerner, que estava presente, questionou o número: se houvesse tanta gente vivendo nas ruas, seria impossível caminhar pela cidade sem encontrar multidões.
Independentemente de posição política, o episódio levanta uma questão que continua muito atual: até onde podemos construir uma narrativa sem distorcer a realidade que pretendemos explicar?
Uma informação pode ser verdadeira e ainda assim produzir uma impressão enganosa quando retirada do contexto. Um número pode estar correto, mas representar apenas uma parte da história. Uma escolha editorial pode destacar determinados acontecimentos e deixar outros em segundo plano. Quando tudo isso é feito para conduzir deliberadamente o público a uma conclusão, a comunicação começa a se aproximar da manipulação.
E isso não acontece apenas na política. Está na comunicação corporativa, no jornalismo, nas redes sociais, nas campanhas publicitárias e também na maneira como pessoas e organizações contam a própria história.
Por isso, também precisamos olhar para quem produz e distribui a informação.
Canais de comunicação têm patrocinadores e anunciantes. Criadores de conteúdo podem ter interesses comerciais. Organizações que trabalham com checagem de fatos possuem estruturas de financiamento que precisam ser conhecidas. Existem registros públicos de financiamento do governo americano a iniciativas relacionadas ao combate à desinformação e a organizações de mídia, inclusive referências a iniciativas de fact-checking no Brasil. Isso não permite concluir, por si só, que uma organização tenha manipulado uma checagem para atender ao interesse de um financiador. Mas reforça a importância de saber quem financia, quais são os critérios utilizados, quais fontes foram consultadas e como uma conclusão
foi alcançada.
É por isso que procurar uma única fonte para confirmar aquilo em que já acreditamos pode ser tão perigoso. Comparar informações, consultar veículos diferentes, buscar documentos originais e chegar às fontes primárias sempre que possível são atitudes que ajudam a separar a realidade da narrativa construída sobre ela.
Não significa acreditar que todas as versões têm o mesmo valor. Significa não entregar a nenhuma delas o direito automático de se apresentar como a realidade.
Quem procura apenas uma boa história tem a ficção. Ali, a imaginação pode criar personagens, acontecimentos e mundos inteiros sem precisar prestar contas ao que aconteceu de verdade.
A não ficção exige outro compromisso. Uma informação pode influenciar uma decisão empresarial, uma política pública, uma eleição ou o comportamento de milhares de pessoas.
Por isso, contar fatos exige responsabilidade.
E a realidade tem uma característica incômoda: ela costuma aparecer onde a narrativa não consegue chegar.
Está no preço que encontramos no caixa do supermercado, quando ele não corresponde ao retrato que os números oficiais parecem apresentar. Está na obra anunciada que permanece inacabada, no escândalo que vem à tona, na promessa que não se concretiza, nos efeitos de uma política pública e na violência que atinge a vida de quem não participa da disputa
de narrativas.
A realidade também aparece no resultado de uma empresa, no desemprego de uma família, na conta que não fecha, no serviço que não funciona.
Nenhuma narrativa consegue alterar indefinidamente aquilo que as pessoas experimentam na própria vida.
Mas é preciso querer enxergar.
Esse talvez seja o ponto mais delicado de toda essa discussão. Procurar a verdade significa estar disposto a encontrar também aquilo que contradiz o que gostaríamos que
fosse verdade.
Narrativas podem ajudar a compreender a realidade. Não podem substituir os fatos.
E, quando a comunicação tem poder para influenciar decisões e afetar a vida de muitas pessoas, distinguir narrativa de realidade deixa de ser apenas uma escolha.
Torna-se uma questão de responsabilidade.



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