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Os rituais secretos por trás das histórias que amamos

  • Foto do escritor: Claudia Taulois
    Claudia Taulois
  • 25 de jun.
  • 3 min de leitura


Quando lemos um romance que nos emociona ou uma história que parece ter surgido pronta na mente de alguém, é fácil imaginar que escritores vivem à espera de momentos de inspiração. Como se as palavras simplesmente aparecessem. Mas, ao ouvir autores de diferentes épocas, países e estilos, percebe-se algo curioso: por trás de cada livro existe menos magia do que método, menos inspiração do que persistência.


Recentemente, ao responder a uma pergunta do Clube do Livro da Reese Witherspoon, a escritora Marie Benedict contou que escolhe uma música instrumental específica para cada livro e a escuta sempre que vai escrever. A repetição funciona como um portal: basta ouvir aqueles acordes para retornar aos personagens, ao cenário e à atmosfera da história. Já Victoria Christopher Murray revelou um hábito inusitado: gosta de trabalhar com a televisão ligada no mudo. O movimento na tela, sem o som, parece ajudá-la a manter a concentração.


Esses rituais podem parecer estranhos, mas estão longe de ser exceções. Na verdade, muitos escritores desenvolveram maneiras muito particulares de entrar no estado criativo.


Stephen King, por exemplo, escreve todos os dias. Em seu livro Sobre a Escrita, conta que estabelece metas diárias de palavras e não espera pela inspiração. Para ele, a inspiração costuma encontrar quem já está trabalhando. Haruki Murakami segue uma rotina quase monástica: acorda às quatro da manhã, escreve durante cinco ou seis horas e repete o mesmo ritual por meses. Isabel Allende inicia todos os seus romances em 8 de janeiro, tradição que mantém desde A Casa dos Espíritos.


Ernest Hemingway tinha o hábito de interromper o trabalho sabendo exatamente qual seria a próxima cena. Assim, no dia seguinte, nunca enfrentava a temida página em branco. Neil Gaiman simplificou ainda mais o processo: quando está escrevendo, estabelece apenas duas opções para si mesmo. Escrever ou não fazer nada. Nada de redes sociais, nada de distrações. Se as palavras não vierem, ele simplesmente fica ali, esperando.


Alguns autores são grandes planejadores. Outros preferem descobrir a história enquanto ela acontece. George R. R. Martin, criador de As Crônicas de Gelo e Fogo, costuma dizer que existem escritores "arquitetos" e escritores "jardineiros". Os arquitetos desenham tudo antes de começar. Os jardineiros plantam as sementes e observam a história crescer. Ele se considera um jardineiro.


Margaret Atwood compara o processo de escrita a andar por um quarto escuro com uma lanterna. Não é possível enxergar o caminho inteiro, apenas os próximos passos. Anne Lamott, por sua vez, ficou conhecida por defender os "primeiros rascunhos terríveis". Para ela, a função da primeira versão é simplesmente existir. A qualidade vem depois, nas revisões.


E os brasileiros? Também têm seus rituais e formas muito particulares de criar.


Clarice Lispector dizia que escrevia por necessidade. Muitas vezes anotava ideias em qualquer pedaço de papel e transformava essas impressões em literatura mais tarde. Sua escrita era profundamente intuitiva e nascia da observação do cotidiano e da escuta das próprias emoções.


Lygia Fagundes Telles costumava afirmar que as histórias surgiam da vida. Observava pessoas, diálogos e situações aparentemente simples, transformando-os em narrativas complexas e humanas.


Rubem Braga encontrava inspiração nas pequenas coisas: uma conversa, uma árvore, um pássaro na janela, uma notícia de jornal. Sua obra demonstra que a grande literatura nem sempre nasce de acontecimentos extraordinários, mas da capacidade de perceber o extraordinário no comum.


Carlos Drummond de Andrade era conhecido pelo hábito de anotar ideias e reflexões continuamente. Já Jorge Amado mantinha uma disciplina rigorosa. Tratava a escrita como trabalho e se sentava diariamente diante da máquina de escrever, independentemente da vontade ou do humor.


Ruy Castro, um dos maiores biógrafos brasileiros, costuma dizer que escrever é reescrever. O texto nasce nas revisões, nas correções e nos cortes. Uma visão semelhante à de Truman Capote, que afirmava acreditar mais na tesoura do que no lápis.


Talvez seja justamente isso que mais impressiona ao conhecer os bastidores da escrita. Não existem fórmulas mágicas. Alguns trabalham com música. Outros precisam de silêncio absoluto. Há quem planeje tudo e quem descubra a história no caminho. Alguns escrevem de madrugada. Outros, ao amanhecer. Uns produzem milhares de palavras por dia. Outros avançam lentamente.


Mas existe algo que parece unir todos eles.


A escrita não acontece apenas quando a inspiração chega. Ela acontece quando alguém decide voltar, dia após dia, para a página em branco.


Porque, no fim das contas, talvez os livros sejam menos fruto de momentos extraordinários e mais resultado de uma escolha silenciosa e repetida: sentar, continuar e confiar que, mais cedo ou mais tarde, as palavras aparecerão.


 
 
 

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