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Para os amigos, tudo. Para os inimigos, nada.

Foto do escritor: Claudia Taulois
Claudia Taulois
há 1 dia
3 min de leitura

Não é apenas sobre o que se fala, mas sobre quem fala, quem faz e quem será atingido.


Uma notícia falsa é desinformação quando prejudica o nosso lado, mas vira um equívoco quando nos favorece. Um benefício público é política social quando concedido por quem apoiamos, mas oportunismo eleitoral quando vem do adversário. A liberdade de expressão é um direito inegociável até que alguém diga algo de que discordamos.


A régua muda conforme a conveniência. E o princípio, que deveria orientar o julgamento, passa a servir aos nossos interesses.


Não se trata apenas de uma impressão. A psicologia estuda esse comportamento por meio de conceitos como raciocínio motivado e favoritismo pelo próprio grupo. Uma revisão publicada em 2025 na Annual Review of Psychology, sobre viés partidário no julgamento político, reuniu evidências de que a identidade política influencia a maneira como buscamos, acreditamos e lembramos informações.


Outro estudo, publicado em 2024 no American Journal of Sociology, sob o título When Truth Trumps Facts, identificou flexibilidade moral entre eleitores norte-americanos: participantes de diferentes partidos encontraram justificativas para declarações de seus próprios representantes que contrariavam normas de compromisso com os fatos.


Isso não significa que todos os lados ajam da mesma forma, nem que todas as situações sejam equivalentes. Significa que nossas convicções podem interferir na avaliação dos fatos, mesmo quando acreditamos estar sendo imparciais.


Quando a régua muda


A política oferece exemplos recorrentes. Um governo amplia benefícios em ano eleitoral e seus apoiadores destacam a proteção social, enquanto os adversários questionam o calendário e apontam oportunismo. Quando os papéis se invertem, os argumentos podem trocar de lugar.


É legítimo questionar o custo de uma política, seus resultados, sua legalidade e sua eventual finalidade eleitoral. O problema surge quando esses critérios só são aplicados com rigor ao governo de que não gostamos.


A mesma lógica aparece no combate à corrupção. Uma denúncia contra um adversário é tratada como prova de desonestidade; contra um aliado, como perseguição. Uma investigação é celebrada quando atinge o outro grupo e desqualificada quando alcança o nosso. Mas uma denúncia não equivale a uma condenação, e os mesmos critérios de apuração e responsabilização devem valer para todos.


A liberdade de expressão também pode se tornar seletiva. Defendemos o direito de manifestar opiniões impopulares até que alguém expresse uma ideia de que discordamos. Isso não elimina os limites legais nem a responsabilidade por eventuais abusos. Apenas exige que os critérios não sejam definidos pela simpatia que temos por quem fala.


E o fenômeno ultrapassa a política. Está nas relações profissionais, quando cobramos competência de um concorrente e justificamos os erros de alguém próximo; nas organizações, quando defendemos valores nos discursos institucionais, mas relativizamos comportamentos que os contradizem; e nas causas sociais, quando a solidariedade parece depender de quem foi atingido.


Até as causas podem se tornar convenientes


A defesa de direitos, o combate à discriminação e a proteção das mulheres perdem consistência quando os princípios são aplicados apenas às pessoas com quem

nos identificamos.


Podemos questionar por que determinados episódios despertam grande mobilização pública enquanto outros recebem menos atenção. Mas o silêncio de alguém sobre um caso isolado não prova, por si só, hipocrisia. É preciso observar o contexto, verificar as manifestações existentes e identificar se há um padrão de tratamento desigual.


O ponto não é exigir que todos se pronunciem sobre tudo. É perguntar se os mesmos critérios morais são aplicados quando mudam as pessoas envolvidas, suas relações ou suas afinidades ideológicas.


Se uma conduta é condenável, a identidade de quem a pratica não deveria torná-la aceitável. E se uma pessoa merece respeito, esse direito não deveria depender de popularidade, amizade ou concordância.


O problema não é pertencer a um grupo


Todos temos afinidades, convicções e pessoas com quem nos identificamos. O problema começa quando a lealdade se torna mais importante do que a coerência.


Nessa lógica, primeiro decidimos quem merece nossa defesa ou indignação. Depois encontramos argumentos para justificar a decisão. Os fatos deixam de ser o ponto de partida e passam a ser selecionados conforme a narrativa que queremos sustentar.


A consequência é um debate público em que reconhecer o erro de um aliado parece traição e admitir um acerto do adversário soa como derrota. Ética, verdade e justiça deixam de funcionar como referências compartilhadas e se transformam em instrumentos de disputa.


É uma armadilha porque nos dá a sensação de coerência enquanto nos afasta dela.


Acreditamos estar defendendo princípios quando, na realidade, podemos estar apenas protegendo os nossos.


Antes de condenar ou defender alguém, vale fazer um exercício incômodo: se os envolvidos trocassem de lado, eu pensaria da mesma maneira?


A resposta não precisa ser sempre a mesma diante de situações diferentes. O que precisa permanecer é o compromisso de avaliar os fatos, considerar o contexto e aplicar critérios consistentes.


Princípio que só vale para os outros não é princípio. É conveniência com uma boa narrativa.


 
 
 

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