Quando a conveniência vira princípio. Somos todos hipócritas?

Talvez uma das formas mais perigosas de hipocrisia seja aquela que consegue se apresentar como princípio.
Não é simplesmente mentir.
É defender uma ideia quando ela nos favorece e encontrar uma justificativa para abandoná-la quando a situação se inverte.
Quando o lado muda, adapta o argumento.
Se o interesse se modifca, transforma o discurso.
E, algumas vezes, muda também a régua com que julgamos o certo e o errado.
A hipocrisia não nasceu com as redes sociais, com a política contemporânea ou com a polarização. Ela acompanha as relações humanas há muito tempo.
O que mudou foi a nossa capacidade de amplificá-la.
Hoje, uma contradição pode ganhar uma narrativa que conquista uma audiência, podendo transformar uma conveniência em verdade compartilhada.
A comunicação tem um papel importante nessa história.
Edward Bernays, um dos pioneiros das relações públicas modernas, percebeu isso muito cedo. Sobrinho de Sigmund Freud, estudou como desejos, emoções, símbolos e associações poderiam ser utilizados para influenciar o comportamento coletivo.
Em 1924, enquanto trabalhava na imagem do presidente americano Calvin Coolidge, encontrou um problema simples: Coolidge era visto como reservado, sério e
pouco expansivo.
Bernays não precisava mudar o homem.
Precisava mudar a percepção sobre ele.
Organizou um café da manhã na Casa Branca com atores e atrizes conhecidos, entre eles Al Jolson. A associação com pessoas populares, espontâneas e alegres ajudaria a humanizar a imagem do presidente. O encontro virou notícia.
A estratégia parece familiar porque continua sendo utilizada.
Uma pessoa empresta sua imagem.
Essa imagem empresta seus atributos.
E os atributos passam a ser associados a quem está ao lado dela.
Bernays percebeu que não era necessário mudar o fato para mudar a percepção sobre ele.
A publicidade de cigarros faria algo semelhante durante décadas.
Não vendia apenas tabaco. Vendia independência, juventude, aventura, elegância, liberdade e status.
O produto permanecia o mesmo.
A história contada sobre ele mudava.
A propaganda política levaria essa lógica a dimensões muito mais graves. O nazismo criou um Ministério da Propaganda e utilizou imprensa, rádio, cinema, livros, arte e cultura para controlar a circulação de ideias e construir uma realidade favorável ao regime.
Não é possível colocar esses episódios no mesmo plano moral ou histórico.
Mas eles ajudam a compreender um mecanismo: a comunicação pode não apenas transmitir uma realidade. Pode ajudar a definir como essa realidade será percebida.
E esse poder não ficou restrito à propaganda.
Também aparece quando decidimos quem merece ser ouvido, qual conhecimento deve ser reconhecido, qual dado merece destaque e qual informação pode ser descartada.
Outro exemplo está na própria história da medicina.
Durante séculos, diferentes tradições médicas desenvolveram maneiras distintas de compreender saúde e doença. A medicina tradicional chinesa, por exemplo, construiu uma visão mais voltada à prevenção e ao equilíbrio do organismo, considerando alimentação, hábitos e outros fatores na busca pelas causas dos desequilíbrios, e não apenas o tratamento dos sintomas.
No início do século XX, esse cenário começou a mudar profundamente no Ocidente. O Relatório Flexner, publicado em 1910, propôs um novo padrão para a formação médica nos Estados Unidos e no Canadá, baseado na ciência laboratorial, na pesquisa experimental e na formação clínica. Escolas e práticas que não se enquadravam nesse modelo perderam espaço, e muitas escolas de medicina consideradas não científicas foram fechadas.
A mudança não aconteceu apenas no campo das ideias. Instituições e grandes fundações, como Carnegie e Rockefeller, tiveram papel importante no financiamento e na consolidação desse novo modelo, inclusive na expansão da medicina ocidental em outros países.
O resultado foi uma transformação profunda na maneira como a medicina passou a definir o que deveria ser estudado, ensinado e reconhecido como conhecimento confiável.
Isso não significa negar os enormes avanços produzidos pela medicina científica. Significa perceber que a definição do que é considerado científico, confiável ou legítimo também envolve poder.
Quando um modelo passa a determinar qual conhecimento merece financiamento, pesquisa e espaço nas instituições, ele também influencia quais perguntas serão feitas e quais respostas terão legitimidade.
Às vezes, não precisamos mudar a resposta. Basta definir antes qual pergunta merece
ser feita.
A mesma lógica aparece em muitos lugares.
Na política, defendemos a liberdade de expressão quando a nossa opinião é silenciada e pedimos limites quando o adversário começa a falar.
Defendemos o Estado de Direito quando uma decisão nos favorece e questionamos as instituições quando ela contraria nossas expectativas.
Falamos em democracia quando vencemos e encontramos defeitos no sistema
quando perdemos.
Pedimos transparência do governo, mas defendemos o sigilo quando a informação pode comprometer alguém que apoiamos.
A questão não é concordar ou discordar de determinada decisão.
É observar se a régua utilizada para julgá-la continua sendo a mesma.
Um episódio brasileiro ajuda a tornar isso concreto.
Em outubro de 2022, durante uma sessão do Tribunal Superior Eleitoral, a ministra Cármen Lúcia afirmou que “não se pode permitir a volta de censura sob qualquer argumento no Brasil”. Na mesma sessão, porém, o tribunal manteve uma liminar que impedia, até o fim do segundo turno, a exibição do documentário Quem Mandou Matar Jair Bolsonaro?.
A justificativa estava na excepcionalidade do momento eleitoral e na necessidade de proteger a lisura do processo.
Não é necessário entrar aqui no mérito jurídico da decisão para perceber a tensão que o episódio coloca.
Se um princípio não pode ser admitido “sob qualquer argumento”, mas passa a comportar uma exceção diante de uma circunstância específica, em que momento ele deixa de
ser absoluto?
Uma exceção pode ser legítima.
A mudança de posição também.
O problema começa quando a exceção aparece justamente quando o princípio deixa de
ser conveniente.
É uma questão que ultrapassa a política.
Nas empresas, defendemos a meritocracia quando somos reconhecidos por mérito, mas encontramos mil explicações quando uma oportunidade que queríamos é dada a alguém que consideramos menos preparado.
Falamos em cultura organizacional, mas toleramos comportamentos incompatíveis com os valores da empresa quando a pessoa entrega resultados.
Defendemos equilíbrio entre vida pessoal e trabalho, mas valorizamos silenciosamente quem está disponível a qualquer hora.
Dizemos que pessoas são nosso maior patrimônio e, diante de uma crise, algumas decisões são comunicadas como se fossem apenas números em uma planilha.
Na publicidade, queremos autenticidade, mas construímos personagens cuidadosamente produzidos para parecer espontâneos.
Pregamos a sustentabilidade enquanto compramos, descartamos e substituímos produtos em velocidade cada vez maior.
Defendemos consumo consciente, mas muitas vezes queremos apenas consumir melhor sem abrir mão de consumir mais.
Nas redes sociais, pedimos privacidade enquanto entregamos voluntariamente uma quantidade impressionante de informações sobre nossa vida.
Criticamos a cultura da exposição e, ao mesmo tempo, alimentamos o algoritmo com cada detalhe da nossa rotina.
Reclamamos da superficialidade das redes, mas compartilhamos justamente aquilo que não exige reflexão.
Queremos informação de qualidade, mas frequentemente premiamos quem confirma aquilo em que já acreditamos.
A imprensa também enfrenta essa contradição.
Cobrar independência jornalística é legítimo.
Mas é preciso perguntar se consideramos uma matéria “imparcial” quando ela confirma nossa visão e “tendenciosa” quando apresenta fatos que nos incomodam.
O mesmo acontece com os chamados especialistas.
Gostamos de autoridade quando ela confirma nossa posição.
Quando não confirma, questionamos sua competência, sua intenção, seu financiamento ou sua credibilidade.
O critério muda conforme o resultado.
Até os dados podem entrar nessa lógica.
Um número pode ser apresentado como evidência quando favorece nosso argumento e descartado como manipulação quando não favorece.
Escolhemos o indicador, o recorte, o período, a comparação.
E, no final, acabamos sustentando uma conclusão apesar de tudo o que os fatos demonstram.
Isso também acontece na vida pessoal.
Condenamos alguém por falar mal de uma pessoa que gostamos e fazemos o mesmo quando estamos magoados.
Pedimos sinceridade, mas nem sempre queremos ouvir uma verdade que nos contrarie.
Em casa:
Queremos que nossos filhos sejam independentes, mas muitas vezes tentamos controlar suas escolhas.
Exigimos respeito, mas justificamos nossa própria grosseria como reação.
Ensinamos que não se deve mentir e, ao mesmo tempo, criamos pequenas justificativas para as nossas próprias mentiras.
E eles observam.
Crianças aprendem com aquilo que dizemos.
Mas aprendem ainda mais com aquilo que fazemos quando acreditamos que ninguém está prestando atenção.
Talvez seja por isso que a hipocrisia seja tão difícil de combater.
Porque raramente aparece com esse nome.
Ela chega disfarçada de contexto, de exceção, de necessidade, de estratégia, de proteção, de prudência, de interesse coletivo. E de “dessa vez é diferente”.
E algumas vezes realmente é diferente.
É justamente por isso que o discernimento importa.
Nem toda mudança de posição é hipocrisia.
Mudar de opinião depois de conhecer novos fatos é maturidade.
Reconhecer um erro é honestidade.
O problema é outro:
É mudar a régua sem admitir que a régua mudou.
Condenar determinada prática quando o outro faz e encontrar uma justificativa quando somos nós.
Defender um princípio até o momento em que ele começa a nos contrariar.
Chamar de censura quando atinge o nosso lado e de proteção quando atinge o outro.
Considerar privilégio quando beneficia alguém de quem discordamos e de reconhecimento quando beneficia alguém que admiramos.
Julgar como nepotismo quando acontece com o adversário e de confiança quando
acontece conosco.
Dizer que é manipulação quando o outro escolhe os dados e de boa comunicação quando fazemos exatamente a mesma coisa.
A hipocrisia se torna particularmente poderosa quando encontra uma boa narrativa.
Porque a contradição pode ser rebatizada.
Privilégio pode virar mérito.
Censura pode virar proteção.
Omissão pode virar estratégia.
Conveniência pode virar princípio.
E, quando uma nova palavra é repetida o suficiente, começamos a esquecer aquilo que ela originalmente significava.
É nesse ponto que a comunicação deixa de ser apenas uma ferramenta para transmitir ideias.
Ela passa a participar da construção dos limites do aceitável.
Uma sociedade não normaliza apenas aquilo que aprova explicitamente.
Também normaliza aquilo que deixa de questionar.
A repetição torna familiar e a familiaridade reduz o estranhamento.
E aquilo que ontem parecia absurdo pode, pouco a pouco, parecer apenas mais
uma possibilidade.
Isso vale para a política, as empresas, a imprensa, a publicidade, as redes sociais, a educação. Assim como para as relações familiares e para nós.
Porque seria confortável terminar este texto apontando a hipocrisia dos outros.
Mas provavelmente não é aí que está a parte mais difícil.
A pergunta incômoda é saber quantas vezes fazemos exatamente aquilo que criticamos quando a situação nos favorece.
Quantas vezes defendemos uma regra porque ela nos protege?
E quantas vezes pedimos uma exceção porque somos nós que precisamos dela?
Quantas vezes chamamos de princípio aquilo que, na verdade, é apenas o nosso interesse bem argumentado.
E talvez exista um teste simples.
Se o mesmo fato fosse praticado pelo nosso adversário, continuaríamos usando o
mesmo argumento?
Se a resposta mudar apenas porque mudou o lado, talvez o problema não esteja no fato.
Talvez esteja na régua.
Princípios verdadeiros são colocados à prova justamente quando deixam de
ser convenientes.
Porque, quando nossos interesses mudam e nossos valores acompanham a mudança, talvez nunca estivéssemos defendendo um princípio de verdade.
Estávamos apenas sendo hipócritas.



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