Que mundo queremos deixar para nossos filhos? Talvez ele comece pelas histórias que contamos a eles.
- Claudia Taulois
- 27 de ago.
- 5 min de leitura

Que mundo queremos deixar para nossos filhos?
A resposta costuma passar por educação, segurança, oportunidades, saúde, meio ambiente.
Tudo isso importa. Existe, porém, uma dimensão menos visível dessa construção: o imaginário.
Antes de compreender o mundo, a criança começa a formar uma ideia sobre ele. E isso acontece o tempo inteiro, nas conversas em casa, nas atitudes que observa, nas experiências que vive, nas pessoas com quem convive e nas histórias que acompanha.
Imagine uma criança chegando da escola triste porque um colega foi excluído depois de contar que sua família frequenta tem uma opinião divergente da maioria.
O pai escuta e aproveita aquele momento para falar sobre liberdade e respeito. Explica que cada pessoa tem o direito de fazer suas próprias escolhas e que discordar de alguém não dá a ninguém o direito de desrespeitá-lo.
A conversa termina, mas o aprendizado continua.
No fim de semana, a menina acompanha a avó na entrega de algumas marmitas a pessoas que vivem nas ruas. Observa o cuidado com que ela trata cada uma delas, conversa, escuta, olha nos olhos.
Em certo dia, a mãe chega em casa abatida. Perdeu o emprego depois de um conflito com um chefe autoritário. O pai a acolhe, lembra de suas qualidades e mostra que aquela demissão não define quem ela é. Os dois começam a pensar juntos no próximo passo.
No dia seguinte, surge outra situação. O pai percebe que recebeu dinheiro a mais em uma compra e volta à loja para devolver.
Nada disso aconteceu em uma sala de aula.
Ainda assim, muita coisa foi aprendida.
Liberdade. Respeito. Compaixão. Amor. União. Honestidade. Responsabilidade.
O exemplo mostra o que fazemos. A experiência nos ensina o que aquilo significa. A história nos permite imaginar quem podemos ser.
É justamente aí que o entretenimento ganha uma dimensão que muitas vezes esquecemos.
Uma boa história não entrega um valor pronto. Ela cria uma experiência emocional em
torno dele.
O personagem tem um desejo e encontra um obstáculo. Sente medo, comete erros, enfrenta perdas, recebe ajuda, precisa fazer escolhas e descobre, ao longo da jornada, forças que nem sabia possuir.
A criança acompanha tudo isso de perto.
Torçe pelo personagem. Sofre quando ele perde. Comemora quando ele consegue. Fica curiosa para descobrir como aquela história vai terminar.
Em algum momento, pode surgir uma identificação ainda mais profunda:
“Eu queria ser como ele.”
É aí que o herói deixa de ser apenas um personagem e passa a ocupar um espaço
no imaginário.
A coragem ganha um rosto quando alguém enfrenta o próprio medo. A lealdade ganha significado quando um amigo permanece ao lado de outro justamente quando seria mais fácil ir embora. A responsabilidade aparece quando uma escolha produz consequências e o personagem precisa assumi-las. A compaixão se torna concreta quando alguém decide enxergar quem poderia simplesmente ignorar.
O valor deixa de ser conceito e passa a ser referência.
Isso explica a força da jornada do herói. O que prende a atenção não é uma lição de moral, mas o conflito. Queremos saber se aquele personagem vai conseguir superar o que está diante dele. E, enquanto acompanhamos sua transformação, também somos convidados a pensar sobre nossas próprias escolhas.
Uma criança não precisa encontrar um herói perfeito.
Aliás, personagens perfeitos dificilmente são os mais interessantes. Bons heróis têm medo, dúvidas, defeitos, impulsos e momentos de fraqueza. A diferença está na maneira como enfrentam tudo isso.
Errar pode fazer parte da jornada. Desistir de tentar fazer o certo, não necessariamente.
Essa é uma das grandes possibilidades da narrativa: mostrar valores em ação, sem transformar a história em sermão.
O problema começa quando esquecemos que o entretenimento também participa
da formação.
Não se trata de controlar o que uma criança deve pensar. Muito menos de transformar desenhos, filmes, livros ou games em ferramentas de doutrinação.
Existe uma questão mais simples e, talvez por isso, mais importante.
Se sabemos que crianças aprendem observando, experimentando e admirando, precisamos prestar atenção ao que estamos colocando diante delas.
Isso vale dentro de casa.
Pais podem falar sobre respeito durante o jantar e, ao mesmo tempo, precisam olhar para a maneira como tratam as pessoas. Podem defender honestidade, mas seus próprios atalhos e pequenas justificativas também ensinam. Podem dizer que coragem é importante e, ainda assim, precisam permitir que os filhos enfrentem algumas dificuldades em vez de resolver tudo por eles.
A mesma responsabilidade existe naquilo que chega pela tela.
Uma história pode apresentar um personagem que transforma crueldade em poder ou outro que descobre força justamente quando decide proteger alguém. Pode fazer da mentira uma estratégia admirável ou mostrar as consequências de enganar. Pode tratar o outro como objeto de ridicularização ou construir relações baseadas em amizade e respeito.
Tudo isso vai formando referências.
E referências importam porque crianças não aprendem apenas aquilo que devem fazer.
Elas também aprendem quem vale a pena ser.
É por isso que a discussão sobre cultura e entretenimento merece ser levada a sério.
Não precisamos de histórias que digam às crianças o que pensar. Precisamos de histórias que despertem sua curiosidade, provoquem emoções, apresentem conflitos verdadeiros e coloquem diante delas personagens que valha a pena admirar.
Histórias capazes de divertir tanto que a criança nem perceba que, junto com a aventura, está encontrando coragem, lealdade, compaixão, justiça, responsabilidade, liberdade, amor.
Se queremos um mundo melhor, precisamos começar a contar histórias melhores.
Histórias que prendam a atenção, emocionem, divirtam e criem personagens que as crianças queiram acompanhar, admirar e, quem sabe, um dia se tornar.
No fim, talvez a pergunta mais importante não seja apenas: “O que estamos ensinando às nossas crianças?”
Mas: “Quem estamos ensinando nossas crianças a admirar?”
Essa pergunta também deveria chegar a quem cria livros, filmes, séries, animações e games. Aos produtores, roteiristas, autores, artistas e a todos que ajudam a construir os universos que nossas crianças frequentam.
E também às marcas.
Que histórias você está ajudando a colocar no mundo? Que personagens está escolhendo apoiar? Que exemplos está associando ao seu produto?
Existe uma oportunidade enorme diante de nós: usar a força da narrativa para construir referências melhores sem abrir mão daquilo que faz uma história ser boa.
Aos profissionais de cultura e entretenimento, fica outra provocação: não seria este o momento de abraçar essa necessidade e colocar um tijolo importante na construção do mundo que queremos ver?
Afinal, o futuro de nossas crianças não começa quando elas crescerem.
Ele começa nas referências que estamos ajudando a construir hoje.
E talvez uma das formas mais bonitas de participar dessa construção seja contar uma história que faça uma criança pensar, no fim: “É assim que eu quero ser.”



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