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Você nega o óbvio?

Foto do escritor: Claudia Taulois
Claudia Taulois
25 de set.
4 min de leitura


Às vezes, o problema não é falta de informação.


Os sinais estão ali.


A mudança de comportamento. A queda nos resultados. O afastamento. As reclamações. O desgaste. A repetição dos mesmos conflitos.


Nós percebemos.


Só não gostamos da resposta que eles estão dando.


E talvez essa seja uma das razões pelas quais insistimos tanto em determinadas situações.


Porque reconhecer o que está acontecendo pode exigir algo que não queremos fazer: mudar de rota, admitir um erro, abrir mão de uma expectativa, abandonar um projeto ou aceitar que não temos como resolver aquilo sozinhos.


Então tentamos mais uma vez.


E outra.


Mudamos a estratégia, encontramos uma nova explicação, damos mais tempo, fazemos um esforço adicional. Às vezes, colocamos ainda mais recursos justamente quando os sinais indicam que deveríamos parar e reavaliar.


A psicologia e a ciência da decisão estudam esse comportamento há décadas. Um dos conceitos utilizados para descrevê-lo é escalada do comprometimento: a tendência de continuar investindo em uma decisão ou projeto que apresenta resultados ruins, muitas vezes porque já investimos demais nele e porque admitir o erro anterior tem um

custo psicológico.


É o famoso: “Já chegamos até aqui.”


O problema é que o que foi gasto no passado não volta porque continuamos gastando

no presente.


Isso pode acontecer com dinheiro, mas também com tempo, energia, reputação, relacionamentos e até identidade.


Uma empresa percebe que um produto não encontrou o mercado esperado. Os números começam a mostrar isso. Em vez de perguntar se o produto ainda faz sentido, aumenta o investimento para tentar fazer a estratégia original funcionar.


Uma liderança perde pessoas importantes, recebe sinais de desgaste da equipe e percebe que os resultados pioraram. Em vez de investigar o que mudou, aumenta a cobrança.


Em uma relação, os mesmos conflitos se repetem. As conversas não produzem mudança. O comportamento do outro deixa claro que ele não está disposto, ou não consegue, oferecer aquilo que esperamos. Ainda assim, tentamos encontrar a maneira certa de explicar, convencer, acolher ou esperar.


Não porque os sinais sejam incompreensíveis.

Mas porque a conclusão é incômoda.


E isso também acontece com aquilo em que acreditamos.


Quando somos crianças, acreditamos em Papai Noel. Em algum momento, descobrimos que aquela história não correspondia à realidade e seguimos em frente.


Parece simples porque ninguém construiu a própria identidade em torno da existência de Papai Noel.


Com ideias importantes para nós, é diferente.


Ao longo da vida, construímos convicções sobre como o mundo funciona, sobre o que é certo, sobre o que deveria acontecer, sobre pessoas, instituições, modelos de negócio e sobre a própria sociedade.


Algumas permanecem porque continuam fazendo sentido.

Outras precisam ser revistas.


E é aí que a ideologia, quando se transforma em cegueira, pode se tornar perigosa.


Não porque ter ideias ou convicções seja um problema. Pelo contrário. Uma sociedade precisa de pessoas capazes de defender princípios, questionar modelos e

imaginar alternativas.


O problema começa quando a defesa de uma ideia passa a ser mais importante do que a realidade que deveria ser analisada.


Quando os fatos deixam de servir para testar a crença e passam a ser apenas obstáculos que precisam ser contornados.


Aí aparecem as justificativas.


Quando o resultado contradiz a teoria, conclui-se que o resultado está errado.

A experiência que não confirma o modelo vira exceção.


Diante de uma evidência inconveniente, questionam-se a fonte, a intenção ou até mesmo

o mensageiro.


E, quando a realidade insiste em contrariar aquilo em que acreditamos, cria-se uma nova explicação, qualquer que seja, para preservar a crença original.


E assim uma ideia que deveria ajudar a interpretar o mundo passa a funcionar como uma lente que impede de enxergá-lo.


Isso pode acontecer em qualquer campo.


Na política. Na religião. Na economia. Nas empresas. Nas relações. Na educação. Em qualquer ambiente em que pertencimento e identidade estejam fortemente ligados a uma determinada visão de mundo.


E o mais perigoso é que isso pode acontecer com pessoas inteligentes, informadas

e bem-intencionadas.


Porque o problema não é necessariamente falta de informação.

É a decisão de não deixar que a informação tenha consequência.


Talvez seja essa a diferença fundamental entre ter convicções e ser prisioneiro delas.


Convicções podem orientar nossas escolhas.


Mas, quando não aceitam nenhum fato capaz de contrariá-las, deixam de ser uma referência para se transformar em uma barreira.


E isso nos leva de volta à diferença entre persistência e insistência.


Persistir é continuar porque ainda existem razões para acreditar que vale a pena.

Insistir é continuar porque não queremos aceitar que talvez não valha mais.


Existe ainda uma terceira situação, mais difícil: quando a própria insistência começa a ser usada como prova de que precisamos continuar.


“Desistir agora faria todo o esforço ter sido em vão.”

“Admitir que eu estava errado significaria colocar em dúvida tudo aquilo em que acreditei.”

“E mudar de ideia? O que isso diria sobre mim?”


Só que rever uma escolha não apaga quem fomos.


Aos 20, podemos acreditar sinceramente em algo que já não faça sentido aos 40.


Uma estratégia pode ter sido adequada no momento em que foi escolhida e deixar de funcionar quando o cenário muda.


Há relações importantes que não precisam durar para sempre.


Certos projetos cumprem seu papel justamente porque nos ensinam algo que levamos para o caminho seguinte.


Até uma convicção pode fazer sentido em determinado momento e precisar ser revista quando novas informações aparecem.


Mudar de ideia não é necessariamente trair o passado. Às vezes, é respeitar o presente.


Talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de aceitar: a realidade não tem obrigação de confirmar aquilo que desejamos.


Ela responde.

Cabe a nós decidir se vamos ouvir.


Continuar procurando argumentos que sustentem o que já decidimos é uma possibilidade.


Também podemos selecionar os sinais que confirmam nossa percepção e deixar os demais

de lado.


Às vezes, insistimos tanto que só paramos quando a realidade já não permite mais

ser ignorada.


Existe, porém, outra saída: parar, olhar novamente e perguntar: “O que eu faria se estivesse olhando para isso pela primeira vez?”


Essa pergunta exige uma dose considerável de honestidade.


Porque, às vezes, a resposta será continuar.

Em outras, será mudar.

E, em algumas situações, será recuar.

Recuar não é necessariamente perder.


Pode ser simplesmente reconhecer que a realidade respondeu e que continuar fingindo que não ouvimos terá um preço muito maior.


No trabalho. Nos relacionamentos. Nas empresas. Nas escolhas que fazemos. E também nas ideias que defendemos.


Tem coisa que não precisa de mais uma tentativa. Precisa de coragem para ser reconhecida.


 
 
 

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