Detesto ser repetitiva, mas...
- Claudia Taulois
- há 4 dias
- 2 min de leitura

Detesto ser repetitiva. Mas quando uma tendência grita, não dá para fingir que não
está ouvindo.
E os livros continuam gritando.
Então, aproveitando a brincadeira do momento do “acho chique”, resolvi entrar no jogo.
Porque, se tem uma coisa que hoje parece ter ganhado status de desejo, estilo e até luxo, são eles: os livros.
Não é só impressão. A literatura já entrou no radar de algumas das marcas mais sofisticadas do mundo.
A Miu Miu, por exemplo, criou em 2024 o Literary Club, transformando escritoras e suas obras em parte da conversa cultural da marca. Em 2026, chegou à quarta edição, discutindo desejo e consentimento a partir de Annie Ernaux e Ama Ata Aidoo.
A Acne Studios foi ainda mais longe: abriu cinco Pink Libraries em 2026, de Tóquio a Londres, com curadorias locais e uma característica curiosa: nenhum produto à venda.
A Dior transformou sua famosa Book Tote em capas de clássicos como Drácula, Ulisses e As Flores do Mal. E a Coach, em parceria com a Penguin Random House e o clube de Reese Witherspoon, criou pequenos livros de verdade para pendurar nas bolsas.
Até a Saint Laurent abriu uma livraria em Paris, com livros e discos raros, enquanto a Valentino se aproximou do universo literário patrocinando o International Booker Prize.
Não estamos falando mais de uma coincidência estética.
Os livros se tornaram códigos culturais.
E, sinceramente?
Acho chique.
Só que eu acrescentaria uma coisa.
Acho ainda mais chique saber escolher o que ler.
Porque, se o livro virou uma forma de expressar quem somos, não basta carregar um título bonito debaixo do braço. A escolha diz muito.
Diz sobre nosso repertório. Sobre nossa curiosidade. Sobre aquilo que nos atravessa.
E é aí que entra uma provocação que gosto especialmente de fazer: acho chique ler
autoras brasileiras.
Mais ainda: autoras brasileiras independentes.
Aquelas que não necessariamente estão nas vitrines mais disputadas, não têm uma grande editora por trás e, muitas vezes, constroem sua trajetória praticamente sozinhas.
Ler essas autoras é também uma forma de ampliar o repertório para além do que chega pronto até nós.
Porque existe uma diferença enorme entre ter acesso a milhares de livros e saber
encontrá-los.
O algoritmo pode recomendar aquilo que milhões de pessoas estão lendo.
Mas repertório também nasce quando alguém nos apresenta aquilo que ainda
não descobrimos.
E é aí que entra a força da curadoria.
Uma boa indicação de livro pode abrir uma janela para uma história, uma autora, uma experiência ou uma maneira de pensar que jamais encontraríamos sozinhos.
E talvez esteja aí uma das coisas mais interessantes dessa nova paixão pelos livros.
Depois de anos em que fomos convidados a consumir cada vez mais rápido, escolher o que ler é quase uma pequena declaração de independência.
Escolho esta história, esta autora, este olhar.
Sem algoritmo decidindo tudo por mim.
Então, sim.
Pode vir o Literary Chic, a bolsa-livro, o charm literário, o clube de leitura e a
biblioteca instagramável.
Acho tudo chique.
Mas, se me perguntarem o que considero realmente elegante hoje, minha resposta é outra: ter repertório para escolher um livro que o algoritmo ainda não descobriu.
E, de preferência, escrito por uma autora brasileira independente.
Aí, sim. Acho chique.



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