E se o dinheiro começasse a procurar os projetos, e não mais apenas as instituições?
- Claudia Taulois
- 20 de ago.
- 4 min de leitura

Não seria interessante que o dinheiro começasse a procurar os projetos, e não apenas editoras, produtoras, gravadoras, plataformas e outras instituições que tradicionalmente fazem essa seleção?
Foi essa ideia que ficou na minha cabeça depois de ler uma análise de Randy Greenberg, produtor executivo da franquia Megatubarão e professor da UCLA.
Ele começa com uma afirmação que parece contraditória: apesar da crise profunda de Hollywood, este pode ser um dos melhores momentos dos últimos 50 anos para estar no negócio do entretenimento.
Os números mostram o outro lado. Menos produções, menos empregos, cortes e estruturas tradicionais sendo desmontadas.
Mas, segundo Greenberg, o que está morrendo não é o entretenimento. É o antigo modelo de estúdio, que concentrava três coisas: dinheiro, histórias e distribuição.
E quando essas três coisas deixam de estar concentradas no mesmo lugar, o mercado começa a se reorganizar.
A distribuição, por exemplo, já não é o grande portão de entrada.
Hoje, qualquer pessoa pode produzir e publicar. O problema passou a ser outro: ser encontrada.
A prateleira ficou praticamente infinita. A atenção, não.
Greenberg usa uma imagem muito boa: o YouTube oferece a prateleira, mas não oferece
o tráfego.
É algo que venho observando e escrevendo há algum tempo.
Quanto mais fácil fica produzir e publicar, mais importante se torna a curadoria. Não apenas para decidir o que merece ser visto, mas para descobrir aquilo que ainda não foi visto.
E existe outra transformação acontecendo em paralelo.
As marcas estão entrando no entretenimento.
Não apenas para anunciar dentro de filmes e séries, mas para participar da produção de histórias, criar conteúdo, desenvolver propriedades e construir seus próprios ecossistemas de entretenimento.
O próprio Greenberg cita empresas como Starbucks, Hershey e Concord nesse movimento.
Isso também muda a relação com o público.
Uma coisa é interromper uma história para mostrar um produto.
Outra é fazer com que a marca pertença à história.
É uma diferença que venho observando especialmente no movimento da moda em direção ao audiovisual: a marca deixa de disputar alguns segundos de atenção e passa a disputar um lugar dentro da cultura.
Mas há uma terceira mudança no texto de Greenberg que me parece especialmente interessante.
O dinheiro está começando a procurar os projetos.
Ele cita o crescimento dos family offices e a migração de parte desse capital para investimentos diretos. Em vez de necessariamente procurar apenas fundos ou grandes instituições, esse dinheiro começa a procurar projetos específicos.
Isso muda completamente a lógica.
Porque, se o dinheiro procura o projeto, a pergunta deixa de ser apenas: “Quem tem estrutura para produzir?”
E começa a ser: “Qual história vale a pena financiar?”
Essa mudança abre espaço para algo que ainda parece pouco estruturado.
De um lado, existem histórias e propriedade intelectual espalhadas por toda parte: livros, roteiros, músicas, catálogos, personagens, universos narrativos. O próprio Greenberg chama atenção para o fato de que grande parte desse patrimônio está nas mãos de empresas e pessoas que muitas vezes nem sabem exatamente o que possuem ou como desenvolvê-lo.
De outro, existem marcas procurando relevância cultural.
Criadores procurando caminhos para transformar suas obras.
Investidores procurando projetos.
Plataformas procurando audiência.
E existe um público cada vez mais disputado.
O que falta, talvez, seja a ponte.
Penso nisso também a partir de uma experiência pessoal.
Quando comecei a procurar caminhos para A Fênix, meu romance ambientado no universo da moda e que aborda o tráfico humano e a escravidão moderna, eu não estava pensando apenas em vender um livro ou encontrar uma editora. Olhava para as conexões possíveis.
A história poderia dialogar com a moda. Com o audiovisual, com marcas que já investem em conteúdo, com empresas interessadas em associar sua imagem a determinadas causas, com produtoras, com plataformas, com iniciativas de impacto social e etc.
Em outras palavras, uma única propriedade intelectual poderia atravessar
diferentes ecossistemas.
Foi aí que comecei a enxergar algo que agora a análise de Greenberg tornou ainda mais claro para mim: um modelo de negócio que não esteja em uma empresa controlar toda a cadeia.
Mas sim, em conectar as partes da cadeia que se tornaram independentes.
Uma boa história pode encontrar uma marca.
A marca pode encontrar um projeto.
O projeto pode encontrar um investidor.
Um investidor pode encontrar uma audiência.
E uma audiência pode transformar uma história em algo muito maior do que o produto que a originou.
Durante décadas, o poder estava em controlar os portões.
Agora muitos desses portões desapareceram.
O que começa a ganhar valor é saber o que procurar, o que conectar e onde colocar dinheiro e atenção.
E é aqui que vejo a verdadeira novidade.
Não é sobre ter apenas que mais pessoas podem criar.
Tampouco não é sobre as marcas que já estão produzindo entretenimento.
É o dinheiro que começa a se movimentar na direção das histórias.
E, quando isso acontece, talvez estejamos diante de um mercado em que a próxima grande oportunidade não será construir mais um portão.
Será descobrir quais histórias merecem atravessá-lo e como fazer para unir essas pontas.



Comentários