Quando a escassez muda de lugar
- Claudia Taulois
- 10 de jul.
- 3 min de leitura

Há algumas semanas, venho escrevendo sobre um movimento que parece atravessar diferentes setores da sociedade.
Primeiro, ele apareceu na publicidade. Depois, na literatura. Na música. Na tecnologia.
Fenômenos diferentes, mercados distintos, mas todos pareciam apontar para a
mesma direção.
Quando sinais semelhantes começam a surgir em lugares tão improváveis, gosto de fazer o exercício que dá sentido a este espaço: observar, conectar e escrever.
Foi exatamente essa sensação que tive ao ler uma reportagem publicada pela Forbes, e repercutida por outros veículos internacionais.
Ela conta a história de uma jovem recém-formada que trabalhava no mercado financeiro e se fez uma pergunta cada vez mais comum: o que acontece quando a inteligência artificial puder fazer meu trabalho melhor do que eu?
Ao refletir sobre a própria trajetória, ela percebeu que seu maior diferencial talvez não estivesse nas competências técnicas. Era inteligente, curiosa, boa comunicadora e apaixonada por temas como inteligência artificial, biohacking, criptomoedas e longevidade.
Assuntos que, segundo ela, transformavam um jantar qualquer em horas de conversa.
Foi então que tomou uma decisão improvável.
Abandonou a carreira tradicional e passou a atuar como acompanhante de alto padrão para executivos, investidores e fundadores de startups do Vale do Silício.
Mas o aspecto mais curioso da história não é esse.
Seu diferencial não era apenas a beleza.
Era a capacidade de conversar.
Conversar sobre tecnologia com quem desenvolve tecnologia.
Discutir o futuro com quem o está construindo.
A reportagem mostra que ela não permaneceu sozinha por muito tempo. Outras mulheres, igualmente jovens, instruídas e com forte repertório intelectual, passaram a ocupar esse mesmo espaço, dando origem ao que alguns passaram a chamar de nerdy escorts.
Em seus perfis, misturam ensaios fotográficos com reflexões sobre ciência, IA e inovação.
Alguns sites transformam o agendamento em experiências gamificadas. E muitos encontros, segundo a própria reportagem, são marcados por longas conversas sobre o futuro muito mais do que por qualquer outro motivo.
Não pretendo discutir aqui os aspectos éticos dessa atividade.
O que me interessa é aquilo que ela revela.
Porque, quando retiramos o elemento mais chamativo da notícia, sobra uma
pergunta fascinante.
O que pessoas que vivem cercadas pelas tecnologias mais avançadas do planeta estão, de fato, comprando? Talvez a resposta seja simples.
Elas estão comprando atenção.
Presença. Escuta. Repertório. Curiosidade. Conexão.
Durante décadas, mercados valorizaram aquilo que era escasso.
Primeiro, foi a força física.
Depois, o conhecimento técnico.
Agora que boa parte desse conhecimento pode ser acessado — ou até executado — por sistemas inteligentes, a escassez parece ter mudado de lugar.
E mercados fazem o que sempre fizeram.
Passam a atribuir mais valor ao que continua raro.
Talvez seja por isso que esse mesmo movimento apareça em tantos lugares ao mesmo tempo.
Na publicidade, campanhas feitas à mão chamam atenção justamente por
parecerem humanas.
Na literatura, cresce o desejo por histórias capazes de criar pertencimento.
Na música, volta a discussão sobre autoria, identidade e permanência.
Agora, até uma reportagem como essa parece apontar para a mesma direção.
Não porque esses universos tenham relação entre si.
Mas porque todos respondem à mesma transformação cultural.
Quanto mais eficiente se torna a tecnologia, mais percebemos o valor daquilo que ela
não substitui.
Não porque seja impossível de reproduzir.
Mas porque continua sendo raro.
Talvez ainda seja cedo para afirmar que estamos diante de uma mudança definitiva.
Mas os sinais estão convergindo.
E quando mercados tão diferentes começam a precificar as mesmas qualidades, vale a pena prestar atenção.
Porque toda revolução tecnológica redefine aquilo que é abundante.
E, ao fazer isso, redefine também o valor da escassez.
Talvez seja essa a grande pergunta da era da inteligência artificial.
Não quanto a tecnologia vale.
Mas quanto vale aquilo que continua profundamente humano.
Em outras palavras: quanto você, humano, vale?
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