Depois de um século celebrando o indivíduo, a cultura parece querer reunir as pessoas novamente
- Claudia Taulois
- 7 de jul.
- 4 min de leitura

Enquanto a Copa do Mundo mobilizava bilhões de pessoas ao redor do planeta, o Cannes Lions reunia, na França, a indústria criativa para discutir o futuro da comunicação.
À primeira vista, dois universos completamente diferentes.
Mas uma reflexão da produtora executiva Fernanda Germek chamou minha atenção. Ao comentar os dois eventos, ela sugeriu que talvez tanto a Copa quanto Cannes sejam, acima de tudo, fábricas de pertencimento.
A expressão ficou comigo, não apenas pela força da imagem, mas porque parecia dar nome a uma inquietação que venho explorando há algum tempo em meus textos.
Nos últimos meses, escrevi sobre o desafio da permanência das histórias em um mundo saturado de conteúdo. Refleti sobre a inteligência artificial e aquilo que continua sendo exclusivamente humano. Analisei os microdramas chineses, o insight do Spotify sobre a importância de deixar uma marca humana e emocional. Também escrevi sobre o crescimento dos clubes de leitura e defendi que seu sucesso ia muito além dos livros.
Não era apenas sobre uma boa história. Era ter alguém com quem compartilhá-la.
Era conversar sobre um personagem, discordar de um final, descobrir novas interpretações e, sobretudo, sentir que pertenciam a um grupo.
No momento, enxerguei esse movimento como um fenômeno específico.
Agora, começo a suspeitar que ele seja parte de uma transformação muito maior.
Mas talvez seja importante fazer uma distinção.
O pertencimento não é uma novidade.
Na verdade, ele está entre as necessidades humanas mais antigas.
Desde que nossos ancestrais se reuniam em torno de uma fogueira, sobreviver significava pertencer a um grupo. Vieram as tribos, as aldeias, as cidades, as religiões, as nações, as torcidas, os movimentos culturais. Ao longo da história, mudaram os lugares onde esse pertencimento era construído, mas a necessidade permaneceu a mesma.
Talvez a pergunta não seja por que buscamos pertencimento.
Sempre buscamos.
A pergunta é outra.
Em quais momentos da história a cultura decidiu colocá-lo no centro?
Ao olhar para os últimos cem anos, comecei a perceber um movimento interessante.
Nas primeiras décadas do século XX, em meio a guerras e crises econômicas, a cultura oferecia esperança e escapismo. Hollywood, o rádio e os musicais ajudavam as pessoas a sonhar quando a realidade parecia pesada demais.
Depois da Segunda Guerra Mundial, veio o tempo da reconstrução. A televisão entrou nas casas, o consumo ganhou força e o entretenimento passou a vender um ideal de prosperidade. O sonho era viver melhor.
Nos anos 1960 e 1970, esse sonho começou a ser questionado. A arte tornou-se espaço de contestação. O rock, a literatura, o cinema e os movimentos sociais passaram a discutir identidade, liberdade e transformação.
Com a chegada da internet, outra mudança aconteceu. Pela primeira vez, milhões de pessoas deixaram de ser apenas audiência. Todos ganharam voz.
Blogs, YouTube, redes sociais e plataformas digitais fizeram da expressão individual um dos grandes motores da cultura.
Durante anos, parecia que a pergunta dominante era:
Como faço minha voz ser ouvida?
Só que essa conquista trouxe um efeito colateral.
Quanto mais personalizadas ficaram nossas experiências, menos referências passamos
a compartilhar.
Cada algoritmo construiu um mundo diferente.
Cada feed contou uma história única.
Nunca tivemos tanto conteúdo disponível. Mas talvez nunca tenha sido tão difícil fazer com que milhões de pessoas prestassem atenção na mesma coisa, ao mesmo tempo.
É justamente por isso que alguns fenômenos recentes parecem chamar tanta atenção.
Os clubes de leitura, os grandes festivais, os fandoms, as corridas de rua, os jogos online. As comunidades digitais, a Copa do Mundo, o Cannes Lions.
Todos eles oferecem algo que parece cada vez mais raro.
Uma experiência coletiva e uma memória construída em conjunto.
A sensação de viver o mesmo momento ao lado de milhares — ou milhões — de
outras pessoas.
Talvez seja por isso que tantos dos temas sobre os quais escrevi recentemente pareçam conversar entre si.
Os microdramas chineses mostram que seguimos sedentos por histórias.
O Spotify revelou que as músicas capazes de permanecer são aquelas que deixam marcas emocionais.
Em Cannes, um dos Grand Prix mais comentados premiou justamente um projeto que resgatava o fazer manual em plena era da inteligência artificial.
Agora, Copa e Cannes nos lembram que algumas experiências simplesmente não podem ser individualizadas.
Todas essas histórias parecem apontar para a mesma direção.
Não porque o pertencimento tenha surgido agora.
Mas porque, depois de décadas celebrando a expressão individual, talvez a cultura esteja voltando a organizar suas experiências em torno dele.
Durante muito tempo, acreditamos que a atenção era o recurso mais valioso da economia.
Talvez continue sendo.
Mas começo a pensar que existe um ativo ainda mais raro: o pertencimento.
Atenção pode ser comprada.
Alcance pode ser impulsionado.
Dados podem ser ser coletados.
Uma comunidade verdadeira não nasce de um algoritmo.
Ela nasce quando uma história deixa de ser apenas minha e passa a ser nossa.
Talvez essa seja uma das grandes missões da arte, da cultura, do entretenimento — e, por que não, das marcas — na próxima década.
Não apenas criar conteúdos capazes de capturar olhares.
Mas criar histórias capazes de reunir pessoas.
Porque, no fim, talvez essa sempre tenha sido a função mais profunda da cultura.
Lembrar que, antes de sermos consumidores, espectadores ou usuários, somos seres humanos em busca de algo que nos acompanha desde a primeira fogueira.
Seres em busca de um lugar ao qual possamos pertencer.
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