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Não culpe o carteiro pela carta que você não gostou.

  • Foto do escritor: Claudia Taulois
    Claudia Taulois
  • 28 de ago.
  • 3 min de leitura

Como este é um espaço dedicado à comunicação e ao comportamento, considero importante trazer essa discussão para análise.


A polêmica em torno da responsabilidade das plataformas pelo conteúdo que circula nelas está crescendo. E, embora envolva tecnologia, regulação e liberdade de expressão, ela também diz muito sobre a maneira como nos comunicamos e, principalmente, sobre como reagimos ao que recebemos.


A metáfora do carteiro ajuda a começar essa reflexão: não se deve culpar o carteiro pelo conteúdo da carta que ele entrega.


É claro que, no mundo digital, a comparação tem limites. As plataformas não são simples carteiros. Elas podem recomendar, priorizar, amplificar e remover conteúdos. Seus algoritmos influenciam diretamente aquilo que chega até nós.


Por isso, têm responsabilidades.


Mas existe uma distinção que não deveria desaparecer no meio dessa discussão: quem produz a mensagem não é necessariamente quem a distribui.


E essa diferença importa.


O Brasil já tinha cerca de 150 milhões de identidades de usuários em redes sociais no fim de 2025, segundo o DataReportal. O Instagram alcançava 147 milhões de usuários no país.


Estamos falando de ambientes que deixaram de ser apenas canais de comunicação. Eles influenciam opiniões, comportamentos, decisões de compra, reputações e até a maneira como interpretamos acontecimentos.


O tamanho dessa responsabilidade é enorme, mas não podemos terceirizá-la.


Quando recebemos uma informação, temos uma escolha: simplesmente reagir ou tentar compreendê-la.


Quem produziu? O que está sendo dito? É verdadeiro? Qual é o contexto? Há evidências? Existe manipulação?


Essas perguntas são ainda mais importantes quando o conteúdo nos provoca uma reação emocional forte.


Porque, quando estamos indignados, assustados ou revoltados, nossa tendência é procurar rapidamente um culpado.


E o meio acaba se tornando um alvo conveniente.


Só que isso pode nos fazer esquecer algo essencial: a comunicação é uma cadeia de responsabilidades.


Quem cria tem responsabilidade pelo conteúdo.


Aquele que compartilha faz uma escolha.


O que distribui responde pela forma como recomenda e amplifica.


E quem recebe também precisa exercer seu senso crítico.


Isso não significa defender plataformas sem regras. Elas já estão submetidas a leis, normas e mecanismos de responsabilização. E obviamente, conteúdos ilegais, violentos, abusivos ou fraudulentos devem ser responsabilizados. 


Mas não podemos confundir as coisas.


Responsabilizar uma plataforma pelo funcionamento do seu ambiente não deveria significar atribuir a ela a autoria de tudo o que seus usuários dizem.


A liberdade de expressão é garantida pela lei. Um conteúdo nos incomodar não significa que possa ou deva ser censurado. Quando há ofensa, ameaça ou violação de direitos, existem caminhos legais para buscar reparação. Mas simplesmente discordar de uma opinião não é motivo para censurá-la.


Algumas mensagens precisam ser desmentidas. Algumas, debatidas. Outras, denunciadas quando violam a lei.


Existe ainda uma responsabilidade especial quando falamos de crianças e adolescentes.


Eles ainda estão desenvolvendo sua capacidade de discernimento e não podem ser tratados como adultos diante de qualquer conteúdo. Nesse caso, proteção, orientação e controle de acesso são responsabilidades que precisam ser levadas a sério, começando  dentro de casa.


Proteger crianças não é o mesmo que censurar adultos. São situações diferentes e precisam ser tratadas como tal.


Talvez essa seja uma das discussões mais importantes da comunicação contemporânea.


Não apenas o que pode ser publicado, mas como aprendemos a lidar com aquilo que

é divulgado.


Porque, se começarmos a acreditar que toda mensagem de que discordamos deve desaparecer, corremos o risco de substituir pensamento crítico por controle.


Nem toda mensagem que chega até nós merece nossa indignação. Mas toda mensagem merece, antes de uma reação, uma análise.


Talvez o maior desafio da comunicação na era digital seja justamente esse: aprender a distinguir o autor, o mensageiro, o amplificador e o receptor.


E assumir a responsabilidade que cabe a cada um.


O carteiro pode entregar a carta. Mas ele não a escreveu.



Espero que goste dos artigos e que conheça minhas obras. E caso necessite de ajuda para conteúdo ou algum projeto editorial, estou por aqui!

 
 
 

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