O que um escritor revela sem perceber?
- Claudia Taulois
- 19 de ago.
- 4 min de leitura

Uma vez, uma pessoa que havia lido um dos meus livros me perguntou:
“Você não fica receosa do que as pessoas próximas podem pensar ao ler suas histórias?”
Ela pensava especialmente no ambiente de trabalho. No chefe lendo uma cena mais picante.
Em alguém conhecido reconhecer um comportamento de um personagem e pensar: “Será que ela é assim?”
Sorrindo, respondi que não.
Nunca escrevi sobre a minha vida.
E basta olhar para as histórias que escrevi para perceber isso.
Em Quarto Escuro, dois adolescentes se encontram em meio a um sequestro e carregam aquela experiência por muitos anos, enquanto tentam descobrir se um amor pode sobreviver às convenções, às escolhas e às consequências do que aconteceu.
Em O Verdadeiro Poder, uma mulher chega à Presidência da República e precisa enfrentar o crime organizado. Até que descobre que o homem que precisa combater é justamente o grande amor da sua vida. A partir daí, a história vira uma escolha impossível entre o dever e aquilo que ela sente.
Em A Fênix, uma modelo que teve a vida destruída por um trauma acaba entrando em uma trama de tráfico humano e precisa transformar a própria dor em força para enfrentar uma realidade muito maior do que ela.
Em Vida Roubada, Martin descobre, já adulto e depois de construir uma vida inteira, que sua identidade, sua família e boa parte daquilo que acreditava ser verdade foram roubados. Para descobrir quem é, precisa voltar a um passado que nunca viveu.
Se alguém procurasse minha biografia nessas histórias, teria bastante trabalho.
Eu nunca fui sequestrada.
Tampouco enfrentei o crime organizado.
Nunca fui modelo envolvida com tráfico humano.
Nem descobri que minha identidade era uma mentira.
Também escrevi sobre lugares onde nunca estive.
Vida Roubada, por exemplo, passa pela Guatemala. Precisei pesquisar, imaginar, construir aquele lugar para que ele existisse para o personagem.
É disso que a ficção é feita.
Podemos escrever sobre aquilo que nunca vivemos.
Criar personagens que não têm nada a ver conosco.
Entrar em lugares onde nunca estivemos.
Mas existe uma coisa que não conseguimos controlar completamente: aquilo que levamos para dentro da história.
Não necessariamente experiências.
Às vezes são perguntas.
A maneira como enxergamos as relações. Os conflitos que nos interessam. Aquilo que nos incomoda. O que consideramos coragem ou covardia. Até onde alguém pode ir por amor. O que estamos dispostos a sacrificar por aquilo em que acreditamos.
Quando olho para meus livros depois de tantos anos, encontro algumas recorrências.
Personagens arrancados da vida que conheciam.
Pessoas obrigadas a rever suas certezas.
Escolhas em que não existe uma saída completamente boa.
Amor colocado contra outras forças: poder, dever, medo, sobrevivência.
E, principalmente, personagens que precisam se reconstruir depois de alguma ruptura.
Nunca planejei isso.
Muito menos pensei em construir uma “assinatura literária”.
Talvez ela simplesmente tenha aparecido enquanto eu tentava contar uma boa história.
E há outra coisa que aprendi escrevendo: nem sempre controlamos sequer o que a história faz conosco.
Já me peguei chorando enquanto escrevia.
Não porque estivesse contando algo que vivi.
Mas porque estava completamente envolvida com o rumo que a narrativa havia tomado.
Acontece especialmente quando chega uma escolha definitiva.
Como matar um personagem.
Fui eu quem criou aquela pessoa, quem construiu sua história, seus conflitos, suas relações. Em algum momento, fui eu quem decidiu que ela morreria.
E, ainda assim, quando chega a cena, dói.
É estranho.
Você sabe que é ficção. Sabe que foi você quem inventou tudo aquilo. Mas, naquele momento, a história parece ter adquirido uma força própria.
O escritor inventa a história.
Mas depois de certo ponto, precisa também se submeter a ela.
Talvez isso não seja exclusividade da literatura.
Médicos passam anos entrando na vida de pessoas que não são sua família.
Advogados conhecem histórias, conflitos e dramas que não lhe pertencem.
Jornalista atravessam guerras, perdas, escândalos e alegrias que aconteceram com outras pessoas.
Professores acompanham gerações inteiras.
Nenhuma dessas experiências é deles.
Mas seria impossível atravessá-las sem que alguma coisa ficasse.
Podemos ser transformados por aquilo que nunca vivemos.
O escritor apenas leva isso para dentro da ficção de uma maneira mais visível.
Foi pensando nisso que comecei a pesquisar se essa sensação aparecia também na experiência de outros escritores.
Encontrei Kazuo Ishiguro, por exemplo, falando sobre como muitas vezes parte de uma ideia sobre uma pessoa ou um conflito emocional e só depois encontra o tempo, o lugar e até o gênero que melhor servem àquela história. Seus livros são muito diferentes entre si, mas algumas questões retornam, como memória, identidade, culpa e autoengano.
E encontrei também algo que me fez pensar ainda mais em um escritor que admiro há muitos anos: Gabriel García Márquez.
Gosto especialmente da maneira como ele transforma lugares, memórias e acontecimentos em algo que deixa de pertencer apenas à realidade e passa a existir como literatura.
Macondo não precisa ser um lugar que alguém encontre no mapa para ser verdadeiro.
É verdadeiro porque existe dentro da história.
E talvez seja justamente isso que um escritor faz: pega aquilo que conhece, aquilo que pesquisa, aquilo que imagina e aquilo que sente e mistura tudo até que já não seja possível separar completamente uma coisa da outra.
Não estou me comparando a García Márquez ou a Ishiguro.
Estou apenas tentando entender uma coisa que acontece comigo quando escrevo.
Você muda o personagem. Muda o país, a época, o conflito.
E alguma coisa continua ali. Uma pergunta, um olhar, uma inquietação.
E também uma forma de enxergar o amor, o poder, a perda, a culpa, a coragem ou
o recomeço.
Talvez uma assinatura literária não esteja necessariamente naquilo que o escritor
decide repetir.
Pode estar naquilo que continua aparecendo, mesmo quando ele muda completamente
a história.
Por isso, hoje, eu responderia àquela leitora de uma maneira um pouco diferente.
Não tenho medo de que meus leitores confundam meus personagens comigo.
O que eles eventualmente podem reconhecer é alguma coisa minha que nem eu sabia que estava ali.
E não vejo isso como um problema.
Ao contrário.
Acho que seria estranho escrever tantos livros e não deixar absolutamente nada de nós
pelo caminho.
A gente inventa personagens achando que está criando outras pessoas.
Depois de alguns livros, pode descobrir que deixou um pouco de si em cada uma delas.
Nem sempre a própria vida.
Às vezes, apenas a maneira de olhar para ela.



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