O que é justiça para você?

Ser tratado da mesma maneira que os outros?
Receber aquilo que você considera que merece?
Ter as mesmas oportunidades?
Saber que as mesmas regras valem para todos?
A pergunta parece simples até chegar a uma situação em que o resultado não nos favorece.
E é justamente aí que justiça se encontra com comportamento, comunicação e cultura.
Porque a forma como entendemos justiça aparece nas relações que construímos, nas regras que criamos, nas decisões que tomamos e na maneira como explicamos essas decisões para os outros.
Para as empresas, isso vai muito além de ter uma política de diversidade, um código de conduta ou um canal de reclamações. Tem a ver com aquilo que as pessoas experimentam no cotidiano: quem é ouvido, quem é promovido, quem recebe uma segunda chance, quais critérios são usados e se as mesmas regras realmente valem para todos.
E agora existe uma nova camada nessa discussão: a inteligência artificial.
À medida que sistemas passam a apoiar decisões sobre contratação, crédito, atendimento, avaliação de desempenho e tantas outras situações, surge uma pergunta que não é apenas tecnológica: como garantir que uma decisão automatizada também seja percebida
como justa?
Quem definiu o critério? Com quais dados? Ele é aplicado de maneira consistente? Quem pode questionar o resultado? E quem responde quando o sistema erra?
É por isso que falar de justiça hoje também é falar de comportamento, comunicação, cultura e tecnologia.
Mas, afinal, o que entendemos por justiça?
Não existe uma única definição capaz de encerrar essa discussão.
A ideia de justiça atravessa diferentes sociedades e tradições e costuma envolver princípios como igualdade perante as regras, imparcialidade, direitos, oportunidades e ausência
de arbitrariedade.
Mas existe uma diferença importante entre tratar todos exatamente da mesma maneira e garantir que decisões sejam tomadas por critérios justos e consistentes.
Nem sempre situações diferentes exigem exatamente o mesmo tratamento.
O que parece mais importante é que as pessoas consigam compreender os critérios, reconheçam sua legitimidade e tenham algum caminho para questionar uma decisão quando acreditarem que ela foi injusta.
E será que estamos conseguindo fazer isso?
Os dados mostram que ainda existe uma distância considerável entre a ideia de justiça e a maneira como ela é percebida.
Onde as pessoas sentem que são tratadas de forma
mais justa?
A OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) perguntou, em 2025, a pessoas de 38 países participantes se elas acreditavam que seu pedido de benefício ou serviço público seria tratado de maneira justa. A média foi de 53%.
Na Finlândia, chegou a 75%. A percepção de tratamento justo também está associada a maior confiança nas instituições públicas.
Outro indicador ajuda a ampliar essa fotografia.
O Rule of Law Index 2025, do World Justice Project, que avalia 143 países a partir de pesquisas com a população e especialistas, colocou Dinamarca, Noruega, Finlândia e Suécia nas quatro primeiras posições em adesão ao Estado de Direito. O índice considera fatores como direitos fundamentais, ausência de corrupção, aplicação das normas, justiça civil e criminal e limites ao poder.
Isso não significa que esses países sejam sociedades perfeitas ou que seus cidadãos considerem todas as situações justas.
Significa que existem instituições e mecanismos que, segundo esses indicadores, oferecem condições mais robustas para que regras, direitos e decisões sejam aplicados de maneira previsível e controlável.
E talvez esteja aí uma pista importante.
A percepção de justiça não depende apenas do resultado. Depende também de como chegamos até ele.
E a justiça social?
Aqui a conversa fica ainda mais complexa.
O Edelman Trust Barometer 2025 identificou que 61% das pessoas globalmente apresentavam um nível moderado ou alto de ressentimento, conceito usado pela pesquisa para medir a percepção de que governos e empresas dificultam a vida das pessoas, servem a interesses restritos e de que os mais ricos se beneficiam injustamente do sistema.
No Brasil, esse percentual chegou a 64%.
Não estamos falando apenas de desigualdade econômica.
Estamos falando da sensação de que o jogo não é jogado pelas mesmas regras para todos.
E essa percepção tem consequências.
Quando as pessoas deixam de acreditar que as regras são aplicadas de maneira justa, a confiança nas instituições diminui.
E confiança é um daqueles ativos que costumamos perceber apenas quando começa a faltar.
E dentro das empresas?
Talvez seja justamente no ambiente de trabalho que a ideia de justiça deixe de ser abstrata.
Quem é promovido, quem recebe aumento, quem pode errar, quem é ouvido, quem recebe uma segunda chance, quem é responsabilizado, quem consegue falar com a liderança, quem tem sua versão considerada, quem pode questionar uma decisão sem medo de sofrer consequências por isso, etc.
Uma pesquisa da Edelman realizada nos Estados Unidos em 2025 encontrou que 67% das pessoas disseram ter experimentado algum tipo de tratamento desigual ou injusto no trabalho, incluindo situações relacionadas a contratação, promoção, remuneração, exclusão e comentários inadequados. Ao mesmo tempo, 66% dos empregados disseram confiar no próprio empregador para fazer a coisa certa diante de questões de discriminação.
É uma contradição interessante.
O trabalho pode ser um lugar onde a injustiça é experimentada e, ao mesmo tempo, uma das instituições nas quais as pessoas ainda depositam confiança para enfrentá-la.
Isso coloca uma responsabilidade importante sobre as empresas.
Não basta dizer que todas as pessoas são tratadas igualmente.
É preciso criar condições para que elas consigam perceber isso na prática.
Justiça também precisa de processo
Uma empresa não deveria depender apenas da boa intenção de seus líderes para
produzir justiça.
Ela precisa criar mecanismos que reduzam a arbitrariedade:
Critérios claros para promoção.
Regras consistentes para situações semelhantes.
Transparência sobre remuneração e bônus.
Canais seguros para reclamações e denúncias.
Possibilidade real de contestar uma decisão.
Proteção contra retaliação.
Mais de uma pessoa participando de decisões que podem afetar significativamente a carreira de alguém.
E, principalmente, espaço para ouvir quem será afetado.
A OIT ( Organização Internacional do Trabalho) trata o diálogo social entre governos, empregadores e trabalhadores como um mecanismo importante para promover trabalho decente, distribuição mais justa da renda do trabalho e transições mais inclusivas, inclusive diante das mudanças digital e ambiental.
Alguns países também construíram sistemas de negociação coletiva muito mais abrangentes. Em 2024, por exemplo, a cobertura de negociação coletiva estava em torno de 81,6% na Dinamarca, 88,8% na Finlândia e 88% na Suécia, enquanto a média da OCDE era
de 33,6%.
Não é uma prova de que todas as empresas desses países sejam justas.
Mas mostra algo importante: existem sociedades nas quais a participação dos trabalhadores nas relações de trabalho está mais incorporada às próprias instituições.
E agora temos a inteligência artificial
Talvez essa seja uma das partes mais interessantes dessa discussão.
Durante muito tempo, podíamos perguntar:
“Quem tomou essa decisão?”
Agora, em algumas situações, precisaremos perguntar também:
“Como o sistema chegou a essa decisão?”
E isso muda a natureza do problema.
A OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) incluiu entre seus princípios para uma IA confiável justamente valores como direitos humanos, não discriminação, igualdade, justiça, transparência, explicabilidade e responsabilização.
Também recomenda que pessoas afetadas negativamente por um sistema possam compreender, de maneira adequada ao contexto, os fatores que levaram a uma decisão e possam contestá-la.
Ou seja, a discussão sobre justiça não desaparece quando colocamos uma máquina
no processo.
Ela fica ainda mais importante.
Porque automatizar uma decisão não significa automaticamente torná-la imparcial.
Se os dados carregam distorções, se os critérios foram mal definidos ou se ninguém consegue explicar uma decisão, podemos simplesmente transformar uma escolha humana questionável em um processo mais difícil de questionar.
É por isso que transparência, supervisão humana, rastreabilidade e possibilidade de contestação estão aparecendo cada vez mais nas discussões sobre IA responsável. O próprio NIST (National Institute of Standards and Technology), nos Estados Unidos, inclui justiça, transparência, explicabilidade e responsabilização entre as características de sistemas de
IA confiáveis.
Talvez a questão comece antes da tecnologia
Antes de perguntar se uma inteligência artificial é justa, precisamos saber: o que nós consideramos justo?
Porque máquinas podem processar critérios.
Mas somos nós que escolhemos os critérios, que definimos os dados, que decidimos quais diferenças importam, que determinamos quem pode contestar e que estabelecemos quem será responsabilizado quando alguma coisa der errado.
No fim, talvez justiça não seja fazer com que todos recebam exatamente a mesma coisa.
Talvez seja garantir que todos possam confiar nos critérios pelos quais as decisões
são tomadas.
E existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.
Porque existe uma pergunta ainda mais difícil do que “o que é justiça para mim?”.
É saber se eu continuaria chamando de justo aquilo que aconteceu se estivesse do outro lado da decisão.



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