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Eu não estou vendo. Ou escolhi não ver?

  • Foto do escritor: Claudia Taulois
    Claudia Taulois
  • 11 de ago.
  • 4 min de leitura


Existe uma história muito repetida sobre os primeiros encontros entre europeus e povos indígenas: a de que eles não teriam conseguido enxergar os grandes navios porque não possuíam uma referência anterior para aquilo.


A história, ao menos na forma como costuma ser contada, não encontra sustentação histórica suficiente. Mas a ideia por trás dela toca em algo verdadeiro sobre a percepção: não basta receber um estímulo para compreendê-lo. Precisamos de referências para interpretá-lo.


Talvez algo parecido aconteça hoje com a informação.


Não é que não tenhamos acesso aos fatos.


Eles estão diante de nós.


Documentos são publicados. Investigações acontecem. Jornalistas (alguns) fazem perguntas. Dados aparecem.


Mas, quando uma informação não cabe na estrutura que já construímos para explicar o mundo, podemos simplesmente não saber o que fazer com ela.


E existem outras razões para não vermos.


Às vezes, a informação sequer chega até nós.

Vivemos uma época de excesso de informação e escassez de atenção. Ninguém consegue acompanhar tudo. Cada pessoa escolhe algumas fontes, alguns assuntos, alguns jornalistas, alguns canais.


E pode também, ser simplesmente falta de interesse. Ou falta de tempo e de repertório para saber onde procurar.


Há ainda a crença de que, se algo realmente importante estiver acontecendo, alguém nos contará ou aparecerá nos veículos que consideramos importantes.

É uma espécie de terceirização da realidade.


Confiamos em determinados veículos para decidir o que merece nossa atenção e, em grande medida, aceitamos o mundo que eles nos apresentam.


O problema é que essa realidade deixou de ser única.


Hoje existem jornalistas investigando fora dos grandes veículos, documentos sendo analisados por pesquisadores independentes, especialistas questionando versões estabelecidas e veículos menores fazendo um trabalho de apuração muitas vezes mais aprofundado sobre determinados assuntos.


Isso não significa que tudo o que esses veículos publicam seja verdadeiro.

Significa que a fonte não deveria ser usada como substituta da verificação.


O papel do jornalista é justamente investigar, confrontar versões, procurar documentos e trazer fatos.


O do leitor é ler, comparar, questionar e formar sua própria opinião.


O que não deveria acontecer é o caminho inverso:

“Não acredito porque não saiu no veículo em que confio.”


Isso transforma a fonte em árbitro da realidade.


E aí entramos em um segundo problema.

Porque mesmo quando a informação chega até nós, podemos não estar preparados para reconhecê-la.


A psicologia estuda há décadas mecanismos como o viés de confirmação e o raciocínio motivado.


Temos tendência a procurar informações que confirmem aquilo que já pensamos, interpretar evidências de acordo com nossas crenças e ser mais rigorosos com aquilo que ameaça nossa visão de mundo.


E existe uma terceira situação, talvez a mais desconfortável de todas.

Eu vejo. Entendo. Mas escolho não ver.


Não porque a informação não tenha chegado.

Tampouco porque eu não tenha capacidade de compreendê-la.

Mas porque aceitá-la teria um custo.


Talvez significasse admitir que alguém em quem confiei estava errado.

Ou que uma instituição que respeitei tomou uma decisão equivocada.

Que uma opinião que defendi durante anos precisava ser revista.

E que meu grupo pode ter cometido um erro.

Ou simplesmente que o mundo é mais complexo do que a explicação na qual eu me sentia confortável.


Nesse momento, o cérebro encontra maneiras muito eficientes de nos proteger.


Questionamos a fonte.

Encontramos uma inconsistência.

Buscamos uma informação que contradiga aquela primeira.

Dizemos que é manipulação.

Chamamos de exagero.

Esperamos outra confirmação.


E, enquanto isso, continuamos acreditando naquilo que já acreditávamos.


É humano.


E o ambiente digital tornou tudo isso muito mais fácil.


Hoje podemos escolher o jornal, o jornalista, o podcast, o influenciador, o grupo de WhatsApp,a newsletter, o algoritmo, a comunidade.


Podemos construir um universo informacional inteiro no qual determinadas informações simplesmente não aparecem. Ou aparecem e são imediatamente descartadas.


Os dados do Reuters Institute ajudam a dimensionar essa transformação no Brasil.

Quase metade dos brasileiros, 47%, diz evitar notícias às vezes ou frequentemente.

A confiança geral nas notícias caiu para 36%.


E as redes sociais já superaram a televisão como fonte semanal de notícias.

Ao mesmo tempo, 33% dos brasileiros dizem receber notícias de criadores ou influenciadores que se dedicam principalmente a esse tipo de conteúdo.


Temos mais informação do que qualquer geração anterior.

Mas também temos mais liberdade para escolher quais informações

queremos consumir.


Isso produz uma situação paradoxal.


Nunca foi tão fácil saber. E talvez nunca tenha sido tão fácil não saber.


Não porque a informação não exista.

Mas porque podemos não procurá-la.

Podemos não reconhecê-la e não compreendê-la.

E podemos simplesmente decidir que ela não pode ser verdadeira.


Por isso, quando alguém diz: “Eu não vi.”

Talvez existam várias perguntas possíveis.


Onde você procurou?

O que você costuma acompanhar?

Você teve acesso à informação?

Tinha referências para compreendê-la?

E, principalmente: quando ela chegou até você, você realmente quis olhar?


Talvez essa seja uma das grandes questões do nosso tempo.


Não apenas quem controla a informação.

Mas quem controla aquilo que conseguimos enxergar.


E, em uma sociedade na qual cada um pode construir sua própria realidade informacional, existe uma responsabilidade que não podemos terceirizar: a de continuar procurando aquilo que pode contrariar aquilo em que já acreditamos.


Porque existe uma diferença enorme entre não ver e escolher não ver.


E talvez a pergunta mais honesta que possamos fazer diante de uma informação incômoda seja justamente esta: 


Eu não estou vendo. Ou escolhi não ver?


 
 
 

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