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Se nunca produzimos tanta cultura, por que está cada vez mais difícil surgir um novo grande nome?

  • Foto do escritor: Claudia Taulois
    Claudia Taulois
  • 8 de jul.
  • 3 min de leitura


Existe um fenômeno curioso acontecendo na economia criativa.


Ele aparece nas paradas musicais, nos festivais, nas listas de livros mais vendidos, nas plataformas de streaming, na publicidade e até nas discussões sobre inteligência artificial.


À primeira vista, parecem assuntos desconectados. Mas todos apontam para a mesma pergunta: por que, em uma época que produz tanto conteúdo, é tão difícil ver surgir novos fenômenos culturais?


Nos últimos meses, diferentes estudos e reportagens chamaram atenção para essa realidade.


A Billboard mostrou que, em 2026, apenas uma artista estreante conseguiu alcançar pela primeira vez o topo da Hot 100. O Guardian destacou a dificuldade dos festivais em renovar seus headliners. Organizações da indústria musical apontam que artistas emergentes disputam espaço não apenas com lançamentos recentes, mas com mais de um século de música disponível nas plataformas.


Na literatura, o movimento é parecido.


Enquanto novos autores lutam para conquistar leitores, clássicos continuam sendo redescobertos por novas gerações. Ao mesmo tempo, fenômenos impulsionados pelas redes sociais precisam provar que conseguem ir além do sucesso instantâneo para construir uma carreira consistente.


No audiovisual, a lógica também se repete.


Os estúdios recorrem cada vez mais a continuações, remakes e universos já conhecidos. Franquias oferecem um caminho mais seguro em um mercado no qual conquistar a atenção do público se tornou um investimento cada vez mais caro.


Na publicidade, o cenário não é muito diferente.


Em meio à explosão de conteúdos produzidos por inteligência artificial, campanhas premiadas voltam a destacar justamente aquilo que parece mais raro: uma ideia original, um olhar autoral, uma narrativa capaz de provocar emoção verdadeira. Não por acaso, vimos Cannes Lions reconhecer projetos que apostaram no artesanal, na sensibilidade humana e na construção de significado, em vez de apenas acompanhar a velocidade da tecnologia.


À primeira vista, esses movimentos parecem independentes.


Na verdade, todos respondem à mesma transformação.


Durante décadas, a disputa era por espaço.


Hoje, ela é por atenção.


E talvez exista uma mudança ainda mais profunda.


Antes, um músico competia com os lançamentos daquela semana. Um escritor disputava as vitrines das livrarias. Um filme brigava pelos horários do cinema.


Agora, qualquer obra nasce competindo com praticamente toda a história da cultura.


O streaming colocou Beatles, Taylor Swift, Mozart, Bruno Mars e um artista independente separados por apenas alguns cliques. Livros digitais aproximaram lançamentos de clássicos centenários. Plataformas de vídeo fazem um curta independente disputar atenção com produções milionárias, séries consagradas e bilhões de vídeos publicados diariamente.


A tecnologia democratizou a criação.

Mas também universalizou a concorrência.


Nunca foi tão simples publicar uma música, escrever um livro, lançar um podcast, produzir um filme ou criar uma campanha.


Ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil transformar essa produção em presença duradoura.


Esse talvez seja o maior paradoxo da economia criativa contemporânea.


O problema deixou de ser produzir e o desafio passou a ser permanecer.


É justamente por isso que viralizar já não basta.


Um vídeo pode alcançar milhões de pessoas em poucas horas. Uma música pode embalar uma tendência nas redes sociais. Um livro pode dominar as recomendações durante

algumas semanas.


Mas o que realmente diferencia uma obra não é sua capacidade de aparecer.

É sua capacidade de continuar sendo lembrada quando a próxima onda de conteúdo chegar.


Talvez estejamos assistindo ao nascimento de uma nova lógica para a criatividade.


Por muito tempo, o recurso mais escasso era a produção.

Hoje, o recurso mais escasso é a memória.


No fim, a pergunta deixou de ser como criar mais.

A pergunta passou a ser outra.


Como criar algo que as pessoas decidam levar consigo quando todo o restante desaparecer

do feed?


Talvez ninguém saiba exatamente como atravessar a bolha da atenção.


Mas a história mostra que aquilo que permanece quase nunca é apenas o que chamou atenção.

É o que continuou fazendo sentido muito depois que a novidade passou.


 
 
 

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