Quando a literatura deixa de caber na programação oficial

Não estive em Paraty na semana passada.
Ainda assim, passei os últimos dias acompanhando a Flip como quem caminha pela cidade. Li a cobertura da imprensa, assisti aos vídeos publicados pelos canais oficiais, acompanhei entrevistas e, principalmente, procurei ouvir as conversas que aconteciam fora dos auditórios. Aquela troca de impressões que raramente aparece na programação, mas costuma revelar muito sobre um evento.
Foi desse lugar que nasceu este texto. Um esforço para reunir o que aconteceu na maior festa literária do país e entender por que, desta vez, a discussão parece ter ido muito além dos livros.
A 24ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty reuniu cerca de quarenta mil pessoas, o maior público de sua história. Orides Fontela foi a autora homenageada, sua poesia inspirou as mesas oficiais e voltou às livrarias em novas edições. A programação reuniu debates sobre democracia, inteligência artificial, memória, mudanças climáticas, literatura indígena, tradução e jornalismo. Durante cinco dias, Paraty voltou a ocupar o centro das atenções do mercado editorial brasileiro.
Nem tudo, porém, coube na programação.
Quem acompanhou o festival pelas redes sociais viu uma cidade vibrante, mas também pressionada pelos próprios limites. Um apagão interrompeu parte das atividades na quinta-feira. Falhas no telão frustraram quem acompanhava as mesas do lado de fora. Filas intermináveis, ruas tomadas por visitantes, reclamações sobre hospedagem e alimentação e uma infraestrutura claramente no limite também passaram a fazer parte da narrativa. Curiosamente, nenhum desses episódios diminuiu o entusiasmo de quem estava ali. Pelo contrário: reforçaram a sensação de que a Flip havia crescido além do espaço que a acolhe.
Os posts das pessoas foram a forma mais vívida de estar presente, mesmo à distância. Eram eles que traziam a emoção, o testemunho e aqueles pequenos detalhes capazes de nos colocar dentro daquele cenário. Foi ali que a Flip ganhou textura. Não apenas pelos grandes debates, mas pelos comentários sobre uma fila inesperada, um encontro casual, um café lotado, um sarau improvisado durante o blecaute ou um auditório que ficou pequeno demais para tanta gente.
Foi ali também que comecei a perceber outra história.
As filas não terminavam nas tendas da programação oficial. Elas serpenteavam pelas ruas de pedra em direção a casas organizadas por editoras independentes, clubes de leitura, coletivos culturais, podcasts, newsletters, livrarias e criadores de conteúdo. Em muitos vídeos, era difícil distinguir onde terminava a Flip e onde começava a cidade.
Essa foi, para mim, a imagem mais representativa da edição.
A literatura continuava nas mesas oficiais, mas já não se restringia a elas.
O assunto ganhou novos contornos quando o diretor artístico da Flip, Mauro Munhoz, criticou o crescimento das chamadas "casas piratas" — espaços independentes que organizaram programações próprias sem integrar formalmente a estrutura do festival. A preocupação é legítima. Um evento dessa dimensão depende de financiamento, acordos com a cidade, logística, coleta de lixo, segurança e uma série de responsabilidades compartilhadas. Quando parte desse ecossistema cresce sem participar desse esforço coletivo, surge um desequilíbrio que precisa ser discutido.
Bastou, porém, acompanhar o que leitores e escritores compartilhavam para perceber que o centro da conversa era outro.
Os relatos falavam de encontros improváveis, de autores descobertos por acaso, de debates intimistas e de conversas que dificilmente aconteceriam em grandes auditórios. Editoras independentes comemoravam a visibilidade. Escritores celebravam a proximidade com os leitores. Quem passou por essas casas repetia uma palavra com frequência: encontro.
Entre tantos vídeos, reportagens e discussões, um dado chamou especialmente minha atenção.
Os dois livros mais vendidos da Flip pertenciam a autores que não estavam na programação oficial.
Socorro Acioli ocupou o primeiro lugar. Valter Hugo Mãe veio logo atrás. Arrastaram multidões justamente nas programações paralelas. Não deixa de ser simbólico.
Enquanto o palco principal apresentava alguns dos nomes mais importantes da literatura contemporânea, boa parte dos leitores atravessava a cidade para descobrir autores em outros espaços. Não havia ali um movimento de rejeição à programação oficial. Havia algo muito mais interessante: a constatação de que os caminhos entre um livro e seu leitor se multiplicaram.
Confesso que essa constatação me trouxe uma alegria silenciosa.
Há poucos dias, escrevi aqui sobre curadoria. Refleti sobre quem decide quais livros entram para o cânone, quais histórias recebem visibilidade e quais vozes permanecem à margem. A Flip acabou oferecendo uma imagem concreta dessa conversa.
Durante décadas, a curadoria funcionou como uma espécie de mapa. Indicava obras indispensáveis, apresentava novos autores, organizava referências e ajudava leitores a navegar por um universo editorial cada vez mais amplo.
O mapa continua existindo.
A paisagem é que mudou.
Hoje, um clube de leitura pode transformar um livro em best-seller. Um vídeo de poucos segundos no BookTok devolve um romance antigo às listas dos mais vendidos. Newsletters criam comunidades extremamente engajadas. Podcasts aproximam escritores de leitores que talvez nunca entrassem em um festival literário. Pequenas editoras constroem públicos fiéis sem depender exclusivamente das vitrines tradicionais.
A curadoria continua sendo essencial.
O que deixou de existir foi a exclusividade.
A expressão "casas piratas" provocou tanta reação justamente porque carrega uma ideia de fronteira. Sugere que existe um lado oficial e outro periférico, um centro legitimado e um espaço secundário.
As imagens de Paraty mostravam algo diferente.
Leitores transitavam naturalmente entre tendas, livrarias, cafés e casas independentes.
Quem carregava uma sacola cheia de livros parecia pouco preocupado com a origem daquela programação. O interesse estava na conversa, na descoberta, na troca de ideias e na oportunidade de ouvir vozes que dificilmente ocupariam o palco principal.
Durante muito tempo, imaginamos a cultura como uma grande pirâmide. Poucos selecionavam. Muitos aguardavam uma oportunidade para subir.
Paraty desenhou outra figura.
Uma rede.
Com inúmeros pontos de encontro.
Diversas formas de descoberta.
Múltiplas possibilidades de reconhecimento.
Nenhuma suficiente sozinha.
Mudanças parecidas já transformaram outros territórios. O jornalismo passou a dividir espaço com newsletters independentes. A música encontrou novos caminhos longe das gravadoras. O cinema convive com festivais, plataformas e criadores que falam diretamente com comunidades específicas. A literatura parece atravessar a mesma travessia.
Enquanto acompanhava as imagens da Flip, tive a impressão de assistir a um movimento muito antigo. As boas histórias sempre encontraram maneiras de escapar das molduras que tentavam contê-las.
Desta vez, elas atravessaram as tendas, ocuparam casas, livrarias, quintais, cafés e as ruas de pedra de Paraty.
Talvez seja por isso que tanta gente voltou para casa falando menos das mesas e mais dos encontros.



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