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Quando questionar virou ameaça: o perigo de uma sociedade que desaprende a investigar

  • Foto do escritor: Claudia Taulois
    Claudia Taulois
  • 3 de ago.
  • 4 min de leitura


Durante muito tempo, uma das frases mais repetidas na escola foi que a ciência evolui porque faz perguntas. Questionar não era um problema. Era o método.


Foi assim que derrubamos a ideia de que a Terra era o centro do universo, que compreendemos a origem de inúmeras doenças, que mudamos tratamentos médicos, tecnologias e a forma como entendemos o próprio universo.


Nenhuma descoberta importante nasceu da obediência intelectual. Todas começaram com alguém disposto a perguntar se aquilo que parecia definitivo realmente era.


Curiosamente, vivemos uma época em que nunca tivemos tanto acesso à informação e, ao mesmo tempo, parece haver cada vez menos espaço para determinadas perguntas.


Não importa apenas o conteúdo da dúvida. Importa quem a faz.


Em muitos debates públicos, o questionamento deixou de ser respondido com evidências e passou a ser recebido com rótulos.


"Negacionista."

"Conspiracionista."

"Desinformação."


É evidente que teorias conspiratórias existem e que muitas delas não resistem ao confronto com os fatos. Mas o problema começa quando esse rótulo deixa de identificar ideias sem fundamento e passa a funcionar como um atalho para encerrar uma discussão antes mesmo que ela aconteça.


A história mostra que isso não é raro.


Durante décadas, grandes empresas do setor do tabaco financiaram pesquisas e campanhas para minimizar a relação entre cigarro e câncer. Cientistas que insistiam em demonstrar os riscos eram tratados como alarmistas, enquanto interesses econômicos retardavam o reconhecimento das evidências.


Quando Edward Snowden revelou a existência de programas de vigilância em massa conduzidos pela NSA, muita gente considerou aquelas denúncias exageradas. Depois vieram os documentos que comprovaram a dimensão da espionagem.


O projeto MKUltra, da CIA, durante anos foi tratado quase como ficção. Hoje sabemos, por documentos oficiais desclassificados, que experimentos envolvendo controle mental realmente existiram.


As denúncias envolvendo Jeffrey Epstein também passaram anos sendo subestimadas.


Quando a dimensão do caso veio à tona, revelou-se uma rede de exploração sexual que alcançava algumas das pessoas mais influentes do mundo. O problema não era apenas a existência dos crimes. Era perceber quanto tempo levou para que eles fossem enfrentados com a seriedade que exigiam.


Esses exemplos não significam que toda hipótese rejeitada seja verdadeira.

Significam algo diferente.


Que o fato de uma ideia ser considerada absurda em determinado momento não é, por si só, uma prova de que ela esteja errada.


É justamente por isso que sociedades maduras investigam antes de concluir.

Talvez nenhum tema recente ilustre melhor essa dificuldade do que a pandemia

de Covid-19.


No início da crise sanitária, o mundo precisava tomar decisões rápidas diante de um vírus desconhecido. Em um cenário de enorme incerteza, governos, autoridades de saúde e meios de comunicação trabalharam com as informações disponíveis

naquele momento.


O problema começou quando muitas dessas decisões passaram a ser apresentadas não como recomendações baseadas nas evidências existentes, mas como verdades incontestáveis.


Questionar lockdowns prolongados, discutir o fechamento de escolas, levantar dúvidas sobre a efetividade de determinadas medidas, perguntar sobre efeitos adversos das vacinas, defender que diferentes tratamentos fossem investigados ou até discutir a hipótese de um acidente laboratorial passou, em muitos casos, a ser interpretado como um ataque à própria ciência.


Nos Estados Unidos, Anthony Fauci tornou-se o principal símbolo desse processo.

Recentemente, audiências no Congresso, divulgação de documentos internos, e-mails e depoimentos reacenderam debates sobre a condução da pandemia, a comunicação com o público, o financiamento de pesquisas, a origem do vírus e a maneira como determinadas hipóteses foram tratadas desde o início da crise.


Independentemente das conclusões finais sobre cada um desses pontos, algo já ficou evidente: o debate era muito mais complexo do que a narrativa apresentada nos primeiros anos da pandemia fazia parecer.


A própria hipótese de um vazamento de laboratório, inicialmente tratada por muitos veículos como uma teoria conspiratória, voltou a ser considerada plausível e digna de investigação por diferentes órgãos, cientistas e governos. Por que determinadas possibilidades foram descartadas tão rapidamente?


O mesmo ocorreu com diversos outros temas relacionados à pandemia.


Recomendações foram revistas. Estudos produziram resultados diferentes ao longo do tempo. Instituições alteraram posicionamentos. Pesquisadores passaram a defender análises mais variadas sobre medidas que antes eram apresentadas como consenso absoluto. O papel da ciência, que é o de questionar, voltou a ser usado da forma correta.


A grande reflexão é: por que tantas pessoas passaram a tratar conclusões provisórias como verdades definitivas?


Por que perguntas legítimas foram, tantas vezes, confundidas com desinformação?


E por que admitir que uma hipótese merece investigação passou a ser interpretado, por alguns, como tomar partido político?


Talvez porque a pandemia tenha deixado de ser apenas um desafio sanitário.

Ela também se tornou um campo de disputa entre ciência, política, imprensa, redes sociais e interesses econômicos.


Nesse ambiente, muitas vezes deixou-se de perguntar "quais são as evidências?" para perguntar "de que lado você está?".


Esse é um caminho perigoso.

Porque a ciência não é um conjunto de respostas imutáveis.

Ela é um método para fazer perguntas melhores.


Da mesma forma, o jornalismo não existe para proteger narrativas. Existe para investigá-las, inclusive quando isso significa contrariar consensos ou reconhecer erros.


Instituições não perdem credibilidade porque revisam suas posições.

Perdem quando se mostram incapazes de fazê-lo.


Uma sociedade madura não é aquela que nunca erra.

É aquela que consegue olhar para novos fatos sem medo de revisitar antigas certezas.


Questionar nunca foi o inimigo da ciência.

Sempre foi sua maior ferramenta.

Talvez esteja na hora de lembrarmos disso.



 
 
 

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