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O que permanece quando a última página termina?

  • Foto do escritor: Claudia Taulois
    Claudia Taulois
  • 2 de jul.
  • 3 min de leitura


Algumas experiências simplesmente não aceitam ser aceleradas.


Nos últimos meses, uma tendência curiosa começou a chamar a atenção. Entre a Geração Z, os livros físicos voltaram a ganhar espaço. Os fones com fio, que pareciam destinados aos museus da tecnologia, também estão reaparecendo.


Em um mundo cada vez mais digital, conectado e acelerado, cresce o interesse justamente por objetos que exigem menos tecnologia e mais presença.


Há quem explique esse movimento pela nostalgia. Outros enxergam uma busca por bem-estar, por desacelerar ou por reafirmar a própria identidade. Todas essas interpretações parecem plausíveis.


Ao ler sobre esse fenômeno, porém, outra pergunta me veio à mente.


Do que estamos, de fato, sentindo falta?


Nunca tivemos acesso a tanta informação. Entre mensagens, vídeos, podcasts, redes sociais e notificações, o conhecimento circula numa velocidade impressionante.


Ainda assim, é comum ouvir pessoas dizendo que se lembram menos das conversas, dos livros que leram ou até de momentos importantes vividos há pouco tempo.


Não por acaso, estudos sobre cognição mostram que a memória depende da atenção. E diversas pesquisas sugerem que, principalmente em textos longos e complexos, a leitura em papel favorece a compreensão e a retenção das informações quando comparada à leitura

em telas.


Não existe magia nas páginas impressas. O que existe é uma experiência que costuma oferecer menos interrupções e mais continuidade.


No fundo, talvez tudo se resuma a uma única palavra: permanecer.


Permanecer em uma página. Em um pensamento, em um silêncio, em uma história.

A experiência de ler um romance nunca se limitou a acompanhar uma sequência

de acontecimentos.


Existe o peso agradável do livro nas mãos antes mesmo da primeira página. O som quase imperceptível do papel sendo virado. O cheiro de um exemplar recém-saído da gráfica ou aquele perfume inconfundível das páginas amareladas pelo tempo.


Há também o instante em que interrompemos a leitura para imaginar um rosto que o autor jamais descreveu completamente ou para percorrer, pela imaginação, ruas que nunca existiram fora daquela narrativa.


É curioso como personagens fictícios conseguem nos ensinar tanto sobre pessoas reais. Mais curioso ainda é perceber que, muitas vezes, eles acabam revelando aspectos de nós mesmos que permaneciam escondidos.


Poucas experiências exigem tanta presença quanto um bom romance.


Em uma época que nos convida a trocar constantemente de assunto, uma grande história faz exatamente o contrário. Ela nos pede tempo. Tempo para compreender motivações, atravessar conflitos, acompanhar transformações e aceitar que algumas respostas só aparecem muitas páginas depois.


É justamente essa permanência que torna certas leituras inesquecíveis.


Quando um livro realmente nos toca, ele não termina ao fecharmos a última página.


Continua reorganizando pensamentos, despertando lembranças esquecidas e oferecendo novos significados para experiências que já faziam parte da nossa vida.


Essa talvez seja uma das maiores forças da literatura.


Como escritora, penso muito nisso.


Nunca escrevi apenas para contar uma história. O que me move é a possibilidade de criar uma experiência capaz de permanecer com o leitor muito depois do ponto final.


Meus romances nascem de personagens, cenários e conflitos diferentes, mas todos compartilham a mesma intenção: convidar quem lê a desacelerar e mergulhar em questões humanas que não cabem em respostas rápidas.


A boa literatura nunca disputou espaço com a tecnologia. Seu papel sempre foi outro.


Enquanto as ferramentas tornam o acesso à informação cada vez mais rápido, as histórias continuam nos ensinando algo que não pode ser acelerado: a empatia, a imaginação, a reflexão, a construção de memória e o tempo necessário para compreender a complexidade da vida.


Talvez seja por isso que um livro físico continue despertando tanto encanto.


Não apenas pelo papel. Nem pelo cheiro. Muito menos pela capa.

Mas porque ele nos lembra que algumas experiências ainda pedem presença.


Pedir um café sem pressa. Conversar olhando nos olhos. Ouvir uma música do começo ao fim. Folhear páginas. Apaixonar-se por personagens. Sentir saudade de lugares que

nunca existiram.


Fechar um romance e perceber que alguma coisa dentro de nós já não ocupa exatamente o mesmo lugar.


Porque algumas histórias não existem apenas para serem lidas.


Existem para permanecer.


 
 
 

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